ARTIGOS

Paulo Freire e o palhaço

Alexandre Romeiro (1)

Resumo

São inúmeras as técnicas utilizadas para o desenvolvimento do palhaço, elas são eficazes pelo grande potencial criativo gerando disponibilidade física e mental para o jogo cênico. No processo de criação utilizam-se técnicas e práticas que levam os cursistas a valorização de sua cultura corroborando com a pedagogia de Paulo Freire que parte sempre do conhecimento prévio do educando para iniciar o processo de aprendizagem. Este artigo visa identificar alguns elementos da pedagogia de Paulo Freire que podem auxiliar na formação do palhaço.

Palavras-chave: Pedagogia, Palhaço e Paulo Freire.

Abstract

There are many technics for the clown development. They are effective due to the big creative potential and also to the mental and physical availability for the scenic play. There are technics and practices used, that lead the students to consider their own culture valuable, and supporting Paulo Freire´s pedagogical idea considers the previous student knowledge as the starting point for the learning processes. The aim of this article is to identify some Paulo Freire pedagogical elements that can help the Clown development.

Key Word: Pedagogy, clown and Paulo Freire.

INTRODUÇÃO

Este artigo busca um paralelo entre a pedagogia de Paulo Freire e as práticas pedagógicas da linguagem do palhaço. Analisaremos alguns aspectos utilizando duas óticas: a pedagogia libertadora de Paulo Freire e a pedagogia utilizada pelo autor do artigo.
É notório que, com toda a expressividade do palhaço, se desenvolva um forte trabalho corporal que estruture sua consciência levando o aprendiz a entender a lógica de seu corpo e a complexidade de seu movimento. Durante os exercícios de conscientização, solicitamos que os participantes imaginem como seu corpo se projeta no espaço e qual imagem é gerada. Com isso esperamos que seus movimentos sejam claros na comunicação e que isso leve seu público ao entendimento de seu corpo e gestos proporcionando ao cursista o autodesenvolvimento indo ao encontro a Freire quando destaca que:

Sou tão melhor professor, então quanto mais eficazmente consiga provocar o educando no sentido de que prepare ou refine sua curiosidade (…). Na verdade, meu papel como professor, ao ensinar o conteúdo a ou b, não é apenas o de me esforçar, para que o aluno o fixe. Meu papel fundamental, ao falar com clareza o objeto é incitar o aluno a fim de que ele, com os materiais que ofereço, produza uma compreensão do objeto em lugar de recebê-la na íntegra de mim (FREIRE, 1996, p. 118).

No decorrer dos encontros, procuramos realçar as fraquezas e defeitos dos cursistas transformando-os em pontos positivos para gerar a comicidade, com isso, eles se aceitam e compreendem que cada pessoa é especial com seu jeito de se expressar e de ser no mundo enfrentando seus medos. Freire quando fala da cotidianidade do aluno destaca que:

(…) do aluno, a que quase sempre pouca ou quase nenhuma atenção se dá, têm verdade um peso significativo na avaliação da experiência docente. O que importa na formação docente, não é a repetição mecânica do gesto, este ou aquele, mas a compreensão do valor dos sentimentos, das emoções, do desejo, da insegurança a ser superada pela segurança do medo que. Ao ser “educado”, vai gerando a coragem. (FREIRE, 1996 p. 45 grifos meus).

Essa coragem é estimulada pelos jogos usados na formação do palhaço, as estimulações são escolhidas de acordo com o tema que será trabalhado em cada encontro, com os jogos, os cursistas trazem brincadeiras, costumes e relações que compõem pouco a pouco a personalidade do palhaço que é montada de acordo com os elementos de sua própria cultura, dando uma identidade própria para cada palhaço.
Estimula-se no decorrer da descoberta que não existe o certo, o errado, nem o feio ou o bonito, o importante é como o aprendiz desenvolve o pensamento e a ação:

Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos. (…) pensar certo coloca ao professor ou, mais amplamente, à escola, o dever de não só respeitar os saberes com que os educandos, sobretudo os da classe populares, chegam a ela saberes socialmente construídos na pratica comunitária (…). Por que não aproveitar a experiência que têm os alunos de viver (…) (FREIRE, 1996, p. 30).

O referencial de realidade dos aprendizes deve ser respeitado e aproveitado para melhor geração do seu conhecimento ampliando seu repertório de vida e mundo e, dessa maneira, possibilitando o seu acesso ao conhecimento.

O palhaço está sempre em desenvolvimento e é estimulado aos cursistas nutri-lo com habilidades diferenciadas, “(…) o inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida, há inacabamento” (FREIRE, 1996, p. 50).
A brincadeira é usada com a função de libertar para a criação e a transformação das situações e realidades, eles são estimulados a fisicalizarem tudo que surge no pensamento abrindo espaço para a livre expressão:

“(…) é a brincadeira que é universal e que é própria da saúde: o brincar facilita o crescimento e, portanto, a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação na psicoterapia; finalmente, a psicanálise foi desenvolvida como forma altamente especializada do brincar, a serviço da comunicação consigo mesmo e com os outros.” (WINNICOTT, 1975, p. 70).

Entendemos que a brincadeira é base no desenvolvimento do potencial humano levando o cursista a uma liberdade de ação e pensamento, ele age e reage de acordo com as coisas que acontecem ao seu redor interagindo com tudo que lhe é proposto.
O palhaço funciona quando quebra uma lógica esperada, quanto mais atrapalhado e difícil for para chegar ao destino final de uma trajetória, mais gerará a comicidade, quanto mais ele erra, mais graça proporciona para seu público, ele é sucesso quando fracassa Lecoq afirma que:

O clown é aquele que “faz fiasco”, que fracassa em seu número e, a partir daí, põe o espectador em estado de superioridade. Por esse insucesso, ele desvela sua natureza humana profunda que nos emociona e nos faz rir. Mas não basta fracassar com qualquer coisa, ainda é preciso fracassar naquilo que se sabe fazer, isto é, uma proeza.(LECOQ, 2010, p. 216 grifo do autor).

Verificamos que o palhaço vai contra o padrão social estabelecido pelo capitalismo onde a pessoa é valorizada pelas suas vitórias e conquistas, funciona quando erra, vale destacar que para fazer algo errado, ele deve saber fazer certo para fazer bem o “errado”.
Freire, quando conscientiza o cursista, com relação a sua importância, diz que sua orientação nesse mundo não pode ser neutra, enfatiza que “O ponto de partida para uma análise, tanto quanto possível sistemática, da conscientização, deve ser uma compreensão crítica dos seres humanos como existentes no mundo e com o mundo” (FREIRE, 2011, p. 107).
Com isso, o estudante “atenta-se” para as relações da vida em sociedade, assume seu existir no mundo de uma forma menos automática, analisando os fatos e ambientes, intervindo de maneira eficaz para a geração do bem estar social por meio dos encontros.
Verificou-se, em avaliações de aulas ministradas pelo pesquisador, que os educandos saem mais confiantes em si, possibilitando-os a serem seres mais “abertos”:

(…) Somente homens e mulheres, como seres “abertos”, são capazes de realizar a complexa operação de, simultaneamente, transformando o mundo através de sua ação, captar a realidade e expressá-la por meio de sua linguagem criadora. E é enquanto são capazes de tal operação, que implica em “tomar distância” do mundo, objetivando-o, que homens e mulheres se fazem seres com o mundo. (FREIRE, 2011, p. 107 grifos do autor).

Com essa consciência que os cursistas adquirem de sua prática ativa na transformação do mundo e de suas realidades e situações adquire autonomia de sua vida os tornando “gente mais gente” (FREIRE 1996, p. 146).
Como a linguagem do palhaço, é desenvolvida a partir de elementos do próprio aprendiz, entende-se que o estudo pode ser difundido com pessoas que não pertencem à classe artística, possibilitando sua aplicação com todos que desejam entrar em contato com seus sentidos.
No desenvolvimento do palhaço os cursistas são instigados a perceberem todas as curiosidades que os rodeiam,

(…) A construção ou a produção do conhecimento do objeto implica o exercício da curiosidade, sua capacidade crítica de “tomar distância” do objeto, de observá-lo, de condi-lo, de “cercar” o objeto ou fazer sua aproximação metódica, sua capacidade de comparar, de perguntar (FREIRE, 1996, p. 85).

Percebemos que o conhecimento é construído a partir da compreensão de que a curiosidade é necessária para entendermos como esse conhecimento se processa e se forma. Lecoq concorda com Freire quando mostra que “(…) é desejável que, desde o princípio, os alunos se coloquem no âmbito da ingenuidade, da inocência e da curiosidade”. (LECOQ, 2010, p. 60.).

Entendemos que além da curiosidade existem dois âmbitos no qual os cursistas devem se colocar, a ingenuidade e a inocência que são básicos no palhaço. No desenvolvimento do estudo solicita-se que os cursistas levem elementos que figure sua cultura:

“(…) pensar certo coloca o professor ou, mais amplamente, à escola, o dever de não só respeitar os saberes com que os educandos, sobretudo os das classes populares, chegam a ela saberes socialmente construídos na prática comunitária (…) discutir com os alunos a razão de ser de alguns saberes em relação com o ensino dos conteúdos. Por que não aproveitar a experiência que os alunos na tabela abaixo podemos ver quais os elementos trazidos pelos discentes. (FREIRE, 1996, p. 30).

O palhaço é um estado de ser e de sentir e, com sua descoberta procuramos estimular as percepções das sensações e emoções para que sejam utilizadas em seus personagens.

CONCLUSÃO

Com este artigo, verificamos alguns pontos em comum na maneira que Paulo Freire desenvolvia o seu processo educativo podendo ser comparado com os métodos utilizados para as técnicas de construção do palhaço.

Esses pontos trabalhados nos encontros ajudam na compreensão das situações, enfrentamentos dos medos mostrando respeito aos saberes dos educandos e a importância da formação constantemente, com a ideia de inacabamento e inconclusão.

Conscientizamos que são parte integrante da sociedade participando da construção de sua história sempre com a curiosidade aguçada e valorização de sua cultura.

Embasados em depoimentos colhidos em cursos ministrados pelo pesquisador mostram um profundo bem estar dos cursistas que vivem a experiência. Como pudemos verificar, existe uma mescla das técnicas do palhaço com a pedagogia de Freire mostrando validade nesse artigo que recria Paulo Freire.
Paulo Freire, em toda sua trajetória, usou o amor, o cuidado e o carinho com seus educandos, sempre valorizando seus conhecimentos, efetivando sua docência a partir de suas realidades, experiências de vida e contextos nos quais estavam inseridos mostrando que são seres pertencentes e atuantes no mundo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

Freire, Paulo. Ação cultural para a liberdade e outros escritos, 14. Ed. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra, 2011.

Freire, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, 37. ed. São Paulo, SP: Paz e Terra, 1996.

Lecoq, Jacques. O corpo poético: uma pedagogia da criação teatral. São Paulo, SP: Editora Senac São Paulo: Edições SESC SP, 2010.

Winnicott, Donald Woods. O brincar & a realidade. Rio de Janeiro, RJ: Imago Editora LTDA, 1975.

(1) alexandreromeiro2@gmail.com

Cursando Mestrado em linha de Pesquisa e de Intervenção em Gestão e Práticas Pedagógicas (LIPIPP) na UNINOVE. Pós-graduado no curso de MBA em Gestão Estratégica do Terceiro Setor na FMU. Graduado em Educação Artística – Artes Cênicas pela FAMOSP e ator pelo Teatro Escola Macunaíma. Trabalhou por doze anos como palhaço no Projeto Doutores do Riso. Professor de artes no Colégio de Santa Inês e no Instituto SELI (Surdez Educação Linguagem e Inclusão).

Sobre deisy

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