“Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam.”
Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire
O que se perde durante regimes ditatoriais? Liberdade de expressão, de comunicação, de produção, participação social, gestão democrática e direito a cidade, ao país. Mas não só. Em momentos ditatoriais, o país volta-se contra sua própria sociedade. Se, no Brasil, há 24 anos, a Ditadura Civil Militar deixou perdas irreparáveis em relação ao combate do analfabetismo ao exilar o educador Paulo Freire, em outros países o exílio ainda aborta lutas políticas de maneira imensurável.
O ano de 2015 mal começou e já está marcado por inúmeras mortes de cidadãos e cidadãs que tentam cruzar o Mar Mediterrâneo fugindo de regimes ditatoriais que assolam seus países. Cerca de 1.800 pessoas, oriundas da África e do Oriente Médio, morreram no Mediterrâneo este ano, na tentativa de chegar a um “porto seguro” onde o direito à vida seja respeitado.1 Homens e mulheres se viram obrigados a fugir de países como a Síria, Mali, Eritreia e Somália, por exemplo, expulsos de seus territórios por guerras, perseguições políticas, religiosas e étnicas.
Conforme dados divulgados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, 218 mil refugiados e imigrantes cruzaram o Mar Mediterrâneo em 2014. A ilegalidade do ato migratório desse enorme número de pessoas as coloca na categoria de refugiados. Jogados à própria sorte, deixam seus países afim de prolongarem suas vidas, ameaçadas em seus países de origem. Situação semelhante à vivida por Paulo Freire, quando se viu forçado a partir do Brasil, em setembro de 1964.
Paulo Freire, imigrante forçado
Nascido em Recife, dia 19 de setembro de 1921, Paulo Freire sempre foi “muito aclimatado com a cultura nordestina”, como disse seu filho Lutgardes Freire. Aos 10 anos de idade, o educador mudou-se para Jabotão e lá cresceu. Conta, em relatos feitos a Moacir Gadotti, amigo pessoal de Freire, que à medida que via seu corpo crescer, sentia também sua paixão pelo conhecimento aumentar.
Em janeiro de 1964 Paulo Freire lançou em Brasília o Programa Nacional de Alfabetização – PNA (veja mais detalhes no Boletim Unifreire edição 3 – 2014, o ano dos cinquentenários). O Programa era a tradução da paixão, da amorosidade e da solidariedade do educador para com a sua terra natal. Previa atender cinco milhões de analfabetos brasileiros, todavia, 83 dias após sua assinatura, instalou-se no Brasil o regime ditatorial e, com ele, a perseguição a todos(as) aqueles(as) que compactuassem com ideias contrárias à ordem do momento. Desde abril até setembro de 1964, Paulo Freire foi obrigado a ir até o Rio de Janeiro para responder a inquéritos policiais militares. Assim, sob ameaça de ser preso e torturado, o educador exilou-se na Bolívia, a princípio.
A imigração forçada de Freire gerou enormes e imensuráveis perdas para a evolução social, cultural e educacional da sociedade brasileira. As lutas políticas das quais fazia parte foram abandonadas e sufocadas pelo Regime Ditatorial. O Programa Nacional de Alfabetização idealizado e coordenado por Freire foi anulado, passando o Brasil a ser dirigido por um governo autoritário e violento.
Depois de um golpe de Estado na Bolívia, pouco tempo após sua chegada, o educador partiu para o Chile, onde viveu por cinco anos com seus filhos e esposa. Freire morou também nos Estados Unidos durante onze meses, mas foi na Suíça onde permaneceu por mais tempo, até retornar ao Brasil. Lá viveu durante dez anos. Mesmo com as adversidades, Paulo Freire seguiu buscando transformar a realidade, transformar o mundo. Trabalhou em diversos projetos. Foi, entre outros, assessor do Instituto de Desarollo Agropecuario e do Ministério da Educação do Chile, consultor da UNESCO, professor universitário nos EUA, Consultor Especial do Departamento de Educação do Conselho Mundial de Igrejas.
Pelo Conselho Mundial de Igrejas, “andarilhou”, como gostava de dizer, pela África, Ásia, Oceania e América, com exceção do Brasil, onde corria o risco de tornar-se preso político. Desenvolveu projetos em países que acabavam de conquistar sua independência, como Cabo Verde, Angola e Guiné-Bissau. Neste desenvolveu um projeto de alfabetização de jovens e adultos que marcou significativamente o processo educacional do país, conforme detalhado na seção Memória do Boletim Unifreire número 4, de setembro de 2014.
A obrigatoriedade de mudar de país e adaptar-se, repetidamente, a novos idiomas e culturas, impôs à família de Paulo Freire não só o abandono de sua terra e sua gente, mas também o enfrentamento de situações de preconceito e discriminação. Em conversas com Frei Beto, Freire afirmou que o exílio havia sido profundamente pedagógico. Sendo obrigado a morar em outros países, o educador teve a chance de compreender-se e compreender o Brasil melhor. Relata ele:
“Foi exatamente ficando longe dele, preocupado com ele, que me perguntei sobre ele. E, ao me perguntar sobre ele, me perguntei sobre o que fizeram com outros brasileiros, milhares de brasileiros da geração jovem e da minha geração. Foi tomando distância do que fiz, ao assumir o contexto provisório, que pude melhor compreender o que fiz e pude melhor me preparar para continuar fazendo algo fora do meu contexto e também me preparar para uma eventual volta ao Brasil.” Trecho de uma conversa com Frei Betto, extraída do livro “Essa escola chamada vida” (pp. 56-8) – in Paulo Freire: uma biobibliografia.
No vídeo abaixo, seu filho caçula, Lutgardes Freire conta como foi a vivência do exílio na perspectiva de uma criança. Relata, por exemplo, que foi chamado de “Lut – lixo” nos Estados Unidos.
Reaprendendo o Brasil
“Dezesseis anos de ausência exigem uma aprendizagem e uma maior intimidade com o Brasil de hoje. Vim para reaprender o Brasil.” (Paulo Freire, ainda no aeroporto, quando do seu retorno ao Brasil. In Paulo Freire: uma biobibliografia.)
O retorno de Paulo Freire ao Brasil foi um momento histórico para a educação no Brasil. Depois de várias tentativas de conseguir o seu passaporte nas representações consulares brasileiras, em países diferentes, Paulo Freire finalmente obtém o documento, graças a um mandado de segurança.
Em junho de 1980, aos 57 anos, Paulo Freire desembarca no aeroporto de Viracopos em Campinas, regressando definitivamente ao país que havia deixado em 64, sob o comando dos militares. Sua vontade era reassumir as funções na Universidade de Pernambuco, mas as restrições ainda vigentes o impediram. Fixou residência em São Paulo. Aceitou o convite para lecionar na Faculdade de Educação da Unicamp, em Campinas e logo depois ingressou no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação (supervisão e currículo) da PUC/SP.
Paulo Freire participou da fundação do Vereda – Centro de Estudos em Educação, também em São Paulo, cujo objetivo era desenvolver pesquisas, prestar assessoria e atuar na formação de professores dedicados à prática da educação popular. Ele se envolve, dessa forma, nos movimentos de professores, movimentos de educação popular e na luta da classe trabalhadora com educadores jovens, valorizando-os e desenvolvendo trabalhos de aprendizado em conjunto. Viveu momentos de grande conhecimento e produtividade neste seu reaprendizado do Brasil.
As perdas veladas, partidas forçadas
Impossível analisar o exílio de Freire em comparação às imigrações ilegais do Mediterrâneo. O educador retornou ao Brasil em 1979 e foi calorosamente recebido por familiares e amigos, com a tarefa de “re-aprender” seu país, como relatou na época. Porém não é da mesma forma que 1800 pessoas poderão ter seus destinos narrados. A brutalidade dos regimes autoritários de seus países, somada às baixas condições de viagem dessa população os levou a um percurso sem volta.
Para os 218 mil imigrantes que obtiveram sucesso em suas travessias pelo Mar Mediterrâneo, não é difícil prever o rumo de suas vidas. Com a forte onda xenofóbica que assola a Europa desde a crise de 2008, os imigrantes, legais e ilegais, são considerados seres estranhos ao território, inimigos, pessoas que chegam com o intuito de ocupar postos de trabalho que poderiam ser ocupados por europeus. Renegadas e ilegais, as 218 mil pessoas que tentam a sorte em países estrangeiros deixam seu passado, sua história, sua formação, seus conhecimentos e vivem muitas vezes como indigentes em terras ditas de outros.
Apesar de rumos, histórias e condições diferentes, um elo une Freire não só aos 218 mil imigrantes ilegais que cruzaram o Mediterrâneo em 2014, mas a todos e todas que são expulsos de seus países correndo risco de vida: a luta política.
Da mesma forma que o exílio do educador popular comprometeu a luta contra o analfabetismo no Brasil, ferida esta que é sentida até o momento presente, a diáspora populacional característica dos países com regimes autoritários tem tristes consequências também para suas sociedades. A leitura do mundo e a riqueza do conhecimento que estes imigrantes levam consigo ao partir, são perdas que configuram-se em grandes “lacunas” nas lutas políticas em favor dos “esfarrapados do mundo”.
Não é possível medir ou contabilizar o quanto cada país perde em relação à evolução social e educacional, se considerarmos as lutas políticas interrompidas quando lideranças, à semelhança de Paulo Freire, se veem obrigadas a migrar para sobreviver.
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