ARTIGOS

Experiências com a pesquisa geradora: linguagens, métodos, possibilidades, procedimentos e meios em arte

Hamilton Freire Coelho
hamiltonf.coelho@hotmail.com

Resumo:

O presente artigo, trata de uma nova proposta para pesquisar Arte, que chamo de Pesquisa Geradora. Assim, descrevo de forma delineada os meios e procedimentos para utilizá-la, exemplificando sua prática em duas ocasiões distintas. A primeira ocorreu por meio de um projeto social titulado Depois da Manzuá(1). Já a segunda, aconteceu em uma pesquisa realizada como requisito para a obtenção do título de mestre, no Programa associados de Pós – Graduação em Artes Visuais, oferecido pela Universidade Federal da Paraíba – UFPB e Universidade Federal de Pernambuco – UFPE.

Considerações iniciais

Neste trabalho, apresento e exemplifico o uso de uma nova proposta para pesquisar Arte, que surgiu do juízo de interação, entre as ideias do escritor e educador brasileiro Paulo Freire – com seus Temas Geradores, e a Sociologia Crítica do francês Pierre Bourdieu.

A Pesquisa Geradora atua conectando conhecimento a sua origem ou contexto, associando teoria à prática artística, sendo caracterizada pela relação interdisciplinaridade, contextualização e “temas geradores”.

Possui caráter crítico, no referente a estabelecer critérios para coleta de informações, que farão parte do trabalho; sobretudo, valorizando e acreditando em narrativas proporcionadas por pessoas consideradas idosas que viveram ou vivem uma ação artística. Dessa forma, alinhando-se também as ideias de BOURDIEU (2000, p. 23), quando relata: “o poder das palavras só se exerce sobre aqueles que estão dispostos a ouvi-las e escutá-las, em suma, a crer nelas”.

Nessa interação, a interdisciplinaridade torna-se alternativa para se conhecer melhor uma ação artística, atraindo ao estudante/pesquisador (a) o diálogo e a reciprocidade, o desafio e a paciência – frente aos objetivos a serem alcançados. Da mesma forma, atitude de humildade e responsabilidade, de comprometimento com o trabalho e com as pessoas participantes. Concordando com FAZENDA (1979), a Interdisciplinaridade é,

Uma relação de reciprocidade, de mutualidade, que pressupõe uma atitude diferente a ser assumida frente ao problema de conhecimento, ou seja, é a substituição de uma concepção fragmentária para unitária do ser humano (p. 8/9).

Enquanto a contextualização, de forma geral, é o ato de vincular o conhecimento sobre determinada ação artística à sua origem ou ao seu contexto. É por meio da ação contextualizada que o estudante terá a noção da amplitude da ação artística que pretende investigar, bem como a complexidade do conteúdo pertinente ao tema, para que possa fazer as conexões entre os conhecimentos. De acordo com ALMEIDA (2007, p. 39), “É a contextualização que deixa claro para o aluno que o saber é sempre mais amplo, que o conteúdo é sempre mais complexo do que aquilo que está sendo apresentado naquele momento”.
Já os Temas Geradores, são retirados de narrativas orais de indivíduos considerados idosos, residentes na comunidade onde ocorre, ou ocorreu a ação artística, proporcionadas por um processo dialógico entre pesquisador e entrevistados, seguindo os princípios dialógicos Freireanos. Portanto, sendo inspirado no método de ensino desenvolvido pelo educador brasileiro Paulo Freire, que parte do estudo da realidade, por onde educador e educando caminham juntos em pleno diálogo. Nesse processo dialógico, surgem os “temas geradores”, extraídos da problematização da prática cotidiana da vida dos educandos. Segundo FREIRE (1982),

Esses temas se chamam geradores porque, qualquer que seja a natureza de sua compreensão como a ação por eles provocada, contêm em si a possibilidade de desdobrar-se em outros tantos temas que, por sua vez, provocam novas tarefas que devem ser cumpridas (p. 110).

Entretanto, há uma diferença entre os Temas Geradores criados por Paulo Freire e o proposto na Pesquisa Geradora. Os Temas Freireanos são extraídos dialogicamente, problematizando a vida cotidiana dos educandos, visando auxiliá-los nas soluções de problemas. Já os Temas da Pesquisa Geradora, ocorrem por meio do diálogo e questionamentos pré-elaborados. A narrativa proporcionada por essa ação, fará parte do trabalho, tanto sendo fonte primária de informação, como oportunizará a retirada de temas para estudos posteriores. A ideia é gravar a narrativa – com permissão do entrevistado, para que se apresente no trabalho de forma comparativa, com os demais registros sobre a história em foco. Contudo, podemos entender que esta adaptação também indica utilizar o diálogo como meio facilitador do entendimento, além de valerem-se das experiências de vida, ou conhecimento acumulado pelos indivíduos, valorizando-a como ponto de partida do estudo, seguindo os princípios Freireanos.

PESQUISA GERADORA: NARRATIVAS ORAIS COMO PRESSUPOSTO METODOLÓGICO

A Pesquisa Geradora, por utilizar à narrativa oral de pessoas como um de seus pilares estruturais, adota caráter crítico – no referente à coleta de informações sobre determinada ação artística, agindo de forma a conectar conhecimento a seu contexto – podendo ser utilizada nos mais variados tipos de pesquisas.

Presenciar e escutar narrativas orais de pessoas consideradas idosas sobre determinado tema, não deveria ser entendida pelos indivíduos como simples criações fictícias particulares. De acordo com SODRÉ (1988), a narrativa é entendida como,

Discurso capaz de evocar, através da sucessão de fatos, um mundo dado como real ou imaginário situado num tempo e num espaço determinados. Na narrativa distingue-se a narração (construção verbal ou visual que fala do mundo) da diérese (mundo narrado, ou seja, ações, personagens, tempos). Como uma imagem, a narrativa põe diante de nossos olhos, nos apresenta um mundo (P. 75).

A história resgatada da memória pelas pessoas, sobre determinada ação artística, relata suas experiências vivenciadas e acumuladas, mesmo carregando consigo seus traços morais e sociais. As narrativas transcendem a memória individual, prevalecendo à memória coletiva com suas referências exteriores. Portanto, uma ação social. É como se o indivíduo desejasse reiterar o grupo a que pertence por meio de contos. Para HALBWACHS (2006, P. 72), “para evocar o próprio passado, em geral, a pessoa precisa recorrer as lembranças de outras, e se transporta a pontos de referência que existem fora de si, determinados pela sociedade”.

A narrativa vista dessa maneira, encaixa-se na ideologia do ensino de Arte na atualidade, uma vez que a educação brasileira assegura um ensino significativo, voltando-se a valorização das experiências cotidianas dos indivíduos – pois gera o conhecimento acumulado no decorrer de suas vidas. Por outro lado, a Arte e seu ensino são entendidos como uma construção social, histórica e cultural. Como construção social, já que a educação partirá da experiência de vida de cada ser humano. Histórica, pois se volta à determinada época que ocorreu a ação artística. Cultural, pois a Arte é produto de cada cultura. Concordando com CARVALHO (2009),

[…] é necessário criar condições para que todos tenham acesso ao saber e à arte, pois a arte é sempre produto de uma cultura e de um determinado período histórico, além de revelar aspectos essenciais da condição humana. Por ser construída socialmente a arte é interprete de uma realidade social. A ampliação das referências estéticas cria condições para que os indivíduos desenvolvam a compreensão acerca do mundo e de si próprio, interpretem sua própria realidade e se posicionem criticamente diante dela (p. 28).

Portanto, levando em consideração a importância das experiências vividas pelas pessoas, bem como as narrativas proporcionadas pelo conhecimento sobre determinada ação artística, veremos a seguir, experiências proporcionadas pela prática com a Pesquisa Geradora.

DEPOIS DA MANZUÁ: UMA EXPERIÊNCIA DE ARTE COMUNITÁRIA.

No primeiro semestre do ano de 2010, em uma de nossas viagens para surfar, saímos da cidade de João Pessoa em direção a Baia Formosa – praia situada no litoral sul do estado do Rio Grande do Norte (Nordeste do Brasil), e, entre conversas de um professor/artista plástico e um cineasta, sobre cultura e valor cultural de cada localidade, surgiu à ideia de criar um projeto que unisse Artes Plásticas e Cinema em torno de valores culturais, visando sua aplicação em comunidades contidas nos municípios do Estado da Paraíba. A intenção foi resgatar a história das comunidades, através de narrativas provindas da memória de pessoas idosas e conhecidas em cada localidade, visando exaltar e valorizar a cultura local, através de práticas artísticas e exibição de um filme (documentário), que terá como protagonista uma pessoa conhecida da comunidade. O planejamento do trabalho foi consolidado com a elaboração de um projeto, cujo documento foi acumulando às ações desenvolvidas no decorrer do trabalho. Para GIL (2008),

O projeto deve, portanto, especificar os objetivos da pesquisa, apresentar a justificativa de sua realização, definir a modalidade de pesquisa e determinar os procedimentos de coleta e análise de dados. Deve, ainda, esclarecer acerca do cronograma a ser seguido no desenvolvimento da pesquisa e proporcionar a indicação dos recursos humanos, financeiros e materiais necessários para assegurar o êxito da pesquisa (p. 19).

Dessa forma foi elaborado um projeto que ajustasse a união entre Artes Plásticas e Cinema, que teve como objetivo geral, valorizar e revitalizar a cultura local, como específicos, registrar imagens e narrativas de indivíduos contidos na comunidade, visando elaborar um filme documentário; aplicar uma aula de Artes Visuais que unisse teoria à prática por meio de técnicas artísticas – visando expandir o conhecimento dos participantes e apresentar o documentário elaborado na comunidade, consolidando a valorização e revitalização da cultura local. Com o tema e objetivos do trabalho definidos, fez-se necessário seguir três fases distintas:
1ª fase – (Localizar uma comunidade para desenvolver a ação artística). Esta etapa aconteceu ocasionalmente, quando o cineasta comentou com um amigo de trabalho sobre nossa ideia de elaborar um projeto social. Seu amigo relata que seria muito bom e gratificante se este trabalho fosse executado em sua comunidade natal, localizado na cidade de Pedra Lavrada, sertão da Paraíba. Neste depoimento seu amigo descreve que seu município sofre muito com os efeitos provocados pela seca, e consequentemente torna a situação difícil, no qual os mais novos refugiam-se em sonhos de ir embora para São Paulo, em busca de uma vida melhor e ainda poder ajudar a família que fica. Ao tomar conhecimento desde depoimento, decidimos que esta comunidade seria a primeira a receber o projeto.

Com nossa presença na comunidade onde iríamos desenvolver os trabalhos, buscamos saber através dos moradores, “quem são os indivíduos considerados idosos, que conhecem a história da comunidade”, sempre os informando que se tratava de um trabalho artístico. A obtenção dos nomes dos indivíduos, nos fez manter contato visando uma possível entrevista gravada e filmada, a partir da aprovação nos critérios de seleção estabelecidos. Foram selecionados três indivíduos para esta ação, embora apenas um fosse eleito o protagonista do documentário. A escolha por três narrativas, provindas de pessoas diferentes sobre o mesmo tema oportunizou se trabalhar de forma comparativa, mesclando imagens e relatos para que sejam vistas, lidas, escutadas e analisadas, ao final do trabalho. Dessas narrativas também foram extraídos os “temas geradores” da Pesquisa Geradora. Sendo três entrevistados na localidade, foram extraídos dois temas importantes contidos em cada narrativa, somando um total de seis temas considerados geradores. Esses temas, além de terem fortalecido a importância e veracidade das narrativas para o trabalho, os não utilizados, fizeram parte do projeto como sugestões temáticas para pesquisas posteriores. Já a escolha dos indivíduos seguiu os seguintes discernimentos:

Conhecer histórias importantes ocorridas na localidade – A partir da conversa informal que tivemos no momento que fomos conhecê-los, certificamos o quão amplo conhecimento essas pessoas possuem sobre a comunidade.

Possuir idade superior a 60 anos e ser conhecido na comunidade – Esse critério leva em consideração a totalidade das experiências acumuladas por esses indivíduos. Por outro lado, constatou-se que devido à idade dessas pessoas, as narrativas foram detalhadas e teve a visão de época do narrador, o que contribui para o filme documentário.

2ª fase – (Iniciar entrevista gravada e filmada). Este trabalho foi feito por meio de três questões básicas: Como o senhor entende a Arte de narrar histórias? Para o senhor, qual a história que marcou a comunidade e como ocorreu? Que mudanças o senhor vê na comunidade nos dias de hoje que é diferente de antigamente? Essas questões foram elaboradas objetivando reunir informações necessárias para descrever a comunidade em foco. Mesmo assim, ficamos atentos às respostas do entrevistado, pois dependendo que rumo à narrativa seguisse, seria pertinente a intervenção criando perguntas para que voltasse a temática abordada.

Durante a recepção de nossa chegada, conhecemos um senhor relativamente idoso e simpático, bastante conversador, muito conhecido e sempre sorridente, que foi o aprovado nos critérios de escolha para ser nosso protagonista, narrador de memórias. No dia seguinte, começamos as filmagens, registrando imagens de toda região, fazeres e costumes, sempre acompanhado pelos olhares curiosos de crianças e adultos. Quanto ao nosso ator principal do documentário, era visível sua timidez, embora imperasse sua satisfação e o orgulho de ser narrador, podendo contar suas experiências de vida, assistindo estas ser registradas em um filme documentário.

Durante o decorrer de dois dias de filmagens, conversamos, refletimos e contextualizamos com sua esposa, filhos e pessoas da comunidade, sobre as histórias vivenciadas pelo narrador, porque ele é tão conhecido, e como ele tinha influenciado toda comunidade.

3ª fase – (A aula de Artes Plásticas e a apresentação do filme). Após árduos três meses editando, colocando trilha sonora, montando e remontando imagens, enfim, surge o documentário em curta metragem, com 54 minutos de duração, titulado “Pedra”, nome referente a cidade Pedra Lavrada.
Paralelamente as narrativas foram transcritas e organizadas de forma cronológica, estabelecendo uma tessitura comparativa envolvendo às narrativas dos três entrevistados na comunidade, o conceito do professor/pesquisador, registros históricos sobre a localidade, narrativas de alunos participantes, referências complementares sobre a temática e registros fotográficos. A ideia foi reunir a maior quantidade de informações possíveis sobre a comunidade em questão.

A conclusão do filme correspondeu a 1ª e 2ª etapas do projeto. A 3ª e última etapa, foi programada para ocorrer por meio da prática da “Proposta Triangular” para o ensino de Arte, desenvolvida pela educadora Ana Mae Barbosa. Assim, o fazer artístico se desdobrou através do tema “a cultura de Pedra Lavrada”, acompanhado por uma apreciação reflexiva, sobre a elaboração do trabalho artístico com os demais participantes. Já a exibição do filme, foi utilizada como reforço na apreciação e contextualização, cujo tema também tratava da cultura local. Dessa forma, trabalhamos a Pesquisa Geradora como norteador do projeto, auxiliado pelos três eixos da Proposta Triangular, unificando Artes Plásticas e Cinema em benefício do resgate cultural da comunidade.
Em dia e horário previamente marcados, voltamos à comunidade. Logo buscamos um ambiente amplo para execução dos trabalhos. Nesta busca bem sucedida, recebemos o convite para uma entrevista na rádio local, e aproveitamos para convidar as pessoas a participarem dos trabalhos no dia seguinte (sábado), em um local conhecido e determinado pelos próprios moradores da comunidade.

A aula de artes plásticas: técnicas com grafite 6b, lápis de cor e lápis cera.

Chegamos ao local determinado para aula, meia hora antes do horário marcado. O espaço escolhido era amplo, coberto e arejado, contendo inclusive, muitas mesas e cadeiras que ocupavam quase todo espaço.

Nossa chegada foi observada todo tempo por olhares tímidos e curiosos. Podíamos observar a expressão de felicidade e ansiedade, transmitida por crianças, jovens e adultos. Nesse espaço improvisado, havia muitas pessoas que ansiosas, chegaram bem antes do horário marcado; o que contribuiu nos ajudando a organizar as mesas e cadeiras de forma que facilitasse o trabalho. Em contra partida, aproveitei para alargar minhas amizades, conhecê-los melhor, visando aplicar os princípios de Paulo Freire que se baseiam na realidade do educando, levando em conta suas experiências, suas opiniões e sua história de vida; onde educador e educando devem caminhar juntos, dialogando, interagindo durante todo processo de ensino/aprendizagem. Dava para sentir a alegria e curiosidade de muitos, embora quietos à espera do início da aula.

Ao chegar o horário determinado, me apresentei aos indivíduos, e pedi que cada participante da aula se apresentasse. Em seguida expliquei como se utilizava cada material contido na aula, a exemplo de variações de papéis – grosso, fino, sem textura e com; lápis grafite 6B – traços grossos, finos, suaves e fortes; borracha; lápis de cor e cera. Apresentei imagens e obras de artistas conhecidos, a exemplo de Picasso, Miró e Salvador Dalí. Esclareci o significado do termo cultura, mostrando que cada comunidade possui sua própria característica, a exemplo de crenças e histórias. Questionei com todos os indivíduos sobre o que era produzido na região, perguntando também se havia alguém conhecido na localidade, e porque essa pessoa ser tão conhecida. A aula se tornou gradativamente uma festa de vozes falando e comentando, acomodando uma interação total entre os participantes.
Estabeleci que o tema dos trabalhos fosse à cultura de Pedra Lavrada, em especial, sua comunidade. Orientei-os para que desenhasse algo que lembrassem e gostassem em sua sociedade, visando atrair o olhar dos alunos para valorização da cultura local. Andando entre os alunos e observando seus trabalhos, fui surpreendido com a forma de alguns se expressarem; visto que grande parte daqueles indivíduos havia me falado, que nunca tiveram tempo para desenhar.

Ao término do tempo destinado a execução dos trabalhos, pedi a cada participante que escolhessem um desenho entre os demais, para dialogarmos sobre o processo de criação artística. A fruição é importante para o ensino/aprendizagem, pois se refere à reflexão, conhecimento acumulado, emoção, sensação e ao prazer em buscar aquelas imagens vistas e guardadas na memória, para construir sua própria imagem representativa sobre determinado tema. Por outro lado, observei que a partir do contato com novos materiais, tanto crianças como adultos passaram a questioná-los; ou seja, após o conhecimento sobre os materiais trabalhados, se tornaram críticos sobre os mesmos. Ao término dos comentários feitos, pelos participantes sobre seu trabalho, falei que o material utilizado ficaria a disposição deles naquele local de festas da comunidade, e alertei-os para que prestarem atenção no filme, pois complementaria a aula de Arte.

A apresentação do filme “Pedra”.

Com o final do fazer artístico, observou-se muito mais gente chegando para assistir ao filme, pois muitos estavam trabalhando. Diante de muita conversa e perguntas, estávamos montando todo aparato para que fosse possível exibi-lo. Quando o filme começa, aquela algazarra foi suavemente baixando até o total silêncio. As primeiras cenas são narradas por um morador local, muito conhecido por suas histórias; além de ser o motorista da única ambulância da cidade. As pessoas pareciam não acreditar estar vendo aquele indivíduo em um filme! Daí muitos comentários, risadas, alegria geral. Aos poucos o silêncio vai voltando. Ao final do filme, observamos a alegria estampada no rosto das pessoas, sem falar de comentários como: “agora todo mundo vai conhecer nossa comunidade”. Vale ressaltar que foram feitas cópias do filme direcionado ao narrador e outras pessoas da comunidade, visando fortalecer a autoestima dos indivíduos desta comunidade.

O resultado dessa experiência teve retorno quase imediato, pois quando chegamos, eram pessoas tímidas e desconheciam todo material apresentado e ao término dos trabalhos, já estavam questionando sobre os mesmos com muita segurança. Aos poucos as pessoas foram se dispersando, nós, desmontando e embalando todo equipamento para voltar a João Pessoa, com a satisfação que o esforço empregado na organização e idealização desse projeto valeu a pena. Sobretudo, ser gratificado em ver a felicidade estampada em cada rosto, tendo o prazer de promover o ensino/aprendizagem em benefício de uma comunidade, através da Arte.

O ENSINO DE ARTE NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS EM ESCOLAS PÚBLICAS DE ENSINO MÉDIO DE JOÃO PESSOA – PB – 2007 – 2012.

No decorrer de três anos (1992 a 1994), trabalhei como desenhista de uma empresa e observava diariamente indivíduos, jovens e adultos em parada de ônibus coletivo passando dificuldades em se locomoverem por não saberem ler, guiando-se apenas por cores, imagens e perguntas. Essa situação incômoda, fez com que meu olhar se voltasse à desigualdade social brasileira, estimulando-me a desenvolver projetos sociais; bem como examinar aspectos do ensino de Arte, em escolas públicas da modalidade Educação de Jovens e Adultos no Ensino Médio, contidas na cidade de João Pessoa – Paraíba, como tema da dissertação.

O trabalho teve início, por meio de uma pesquisa preliminar realizada em sites da internet, objetivando saber, se havia no Brasil pesquisas relacionadas ao tema. Fez-me observar, que os trabalhos acadêmicos que discutem o ensino de Arte em escolas públicas de EJA no Ensino Médio, são escassos. A partir daí, elaborei o projeto de pesquisa que teve como objetivo geral, analisar o ensino de Arte no Ensino Médio em escolas públicas de EJA na cidade de João Pessoa – PB, e como objetivos específicos, traçar o perfil de professores e alunos participantes de escolas públicas de EJA no Ensino Médio em João Pessoa – PB; verificar as abordagens metodológicas utilizadas no ensino/aprendizagem de Arte nessas escolas e, investigar as condições e recursos para o ensino de Arte nas escolas de EJA selecionadas.

Inicialmente procurei conhecer o universo a ser investigado. Um levantamento preliminar feito na Secretaria de Estado da Educação – Gerência Regional de Educação do Estado da Paraíba, constatou-se que em João Pessoa havia apenas quatro (4) escolas que atendem exclusivamente a modalidade de EJA – tanto no Ensino Fundamental, quanto no Ensino Médio, sendo duas na modalidade presencial e duas semipresenciais (2). Com os objetivos traçados e as escolas localizadas, foi estabelecido critérios para escolha das mesmas:
Ser uma escola específica na modalidade de EJA – A opção em privilegiar as escolas que prestam atendimento exclusivamente a jovens e adultos foi estipulado, partindo do pressuposto que estas seriam mais adaptadas à realidade do público alvo observado.
Oferecer ensino Médio presencial – A decisão de investigar as escolas de EJA no Ensino Médio presencial, foi tomada julgando que seria mais apropriado aplicar questionários, entrevistar, observar as condições e recursos para o ensino de Arte nessas escolas, como foi proposto nos objetivos específicos.
A escola teria que ter no mínimo 10 anos de atuação – foi estabelecido considerando que esse período evidencia a constância da mesma, permitindo observar com mais exatidão o desempenho da instituição.
No primeiro contato com as coordenadoras das duas escolas, relatei a pretensão investigativa; da mesma forma, que havia critérios a responderem para ser escolhida. Logo, se propuseram a responder. A partir da confirmação de aprovação de ambas as escolas sobre os critérios estabelecidos, perguntei-as se concordavam com a pesquisa em suas escolas. De imediato concordaram! Formalizei minha investigação presencial em ambas as escolas, por meio de meu currículo e declaração do departamento do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, onde estava cursando o mestrado. Posteriormente, ambas coordenadoras me responderam um questionário estruturado, que tratava das características da escola e as condições e recursos para o ensino de Arte. Da mesma forma, se dispuseram a apresentar a documentação histórica da escola, relatando que havia um (1) professor de Arte em cada escola e dispuseram os horários das aulas dos dois professores. De acordo com os horários dos professores, que no caso eram em turnos diferentes (Tarde e noite), busquei conhecê-los e relatei-os que minha presença se tratava de uma pesquisa no campo sobre o ensino de Arte. Então, perguntei-os se poderia participar de uma entrevista, além de relatar que gostaria de assistir suas aulas – juntamente com os demais alunos em sala de aula durante o semestre. Imediatamente concordaram!

Como combinado com os professores, ao final da primeira aula eles me concederam a entrevista, sendo gravada com a permissão dos mesmos. Essa entrevista foi elaborada de forma semiestruturada, o que permite perguntas paralelas e complementares ao tema abordado. Portanto, de forma dialógica conquistei dados sobre a formação destes, as opções de abordagem metodológicas para o ensino/aprendizagem, bem como sobre as condições e recursos de que dispõem para o ensino de Arte. Por outro lado, foi gratificante me tornar mais um aluno nas turmas das escolas, pois vivenciei de como ocorre o ensino de Arte nas escolas de EJA no Ensino Médio. Observei aspectos como a duração das aulas, atitude do professor, dinâmica das aulas, atividades realizadas em sala de aula, recursos utilizados no ensino de Arte, relação professor e aluno, estrutura física da escola, a organização, elaboração e a sistemática dos conteúdos abordados em sala de aula. Especialmente criei laços de amizade e reciprocidade com os alunos, para poder compreendê-los e para que fossem participativos diante do questionário a responder e entrevistas a relatar. Assim, foi conquistado o perfil dos alunos, a motivação para procurar estudo continuado, as atividades artísticas contidas nas turmas, bem como a visão do aluno sobre o ensino de Arte.

Tratando-se de um estudo de caso de natureza qualitativa exploratória, foram utilizados instrumentos de pesquisa tais como documental e bibliográfica, questionários, entrevistas e registros fotográficos. O estudo também se realizou por meio da observação direta nas escolas selecionadas, tanto nas estruturas físicas, quanto nas ações dos grupos participantes. Dessa forma, foram analisados documentos oficiais, registros administrativos, sites, folders, etc. A análise dos dados foi feita de forma comparativa, entrelaçando narrativas dos entrevistados, registros históricos sobre o tema, o conceito do pesquisador e de estudiosos sobre a temática, referências complementares e registros fotográficos.

Considerações finais

Procurar caminhos para abrandar a disparidade social através do ensino de Arte, me direcionou a estudos em busca de uma proposta para pesquisar Arte. Analisando que o ensino de Artes Visuais na atualidade, volta-se a valorização do cotidiano dos indivíduos, pois gera o conhecimento acumulado, surgiu à ideia de unir ações, para que fosse possível obter resultados significativos em investigações. Neste caminho busquei referências para união no ensino de Arte, chegando à interdisciplinaridade. Percebi a importância e necessidade da contextualização, pois é onde se encontram a questão de identidade cultural dos indivíduos. Já os “temas geradores” surgiram quando entendi que em trabalhos anteriores, haviam temas interessantes contidos nas narrativas dos indivíduos que merecia ser investigado. Logo, associei aos “temas geradores” de Paulo Freire. Já a característica de atuar de forma crítica, estabelecendo discernimentos nas etapas do trabalho, foi inspirada na sociologia Crítica de Pierre Bourdieu, visando garantir a consistência e veracidade dos fatos contidos no trabalho. Assim, continuo acreditando que a experiência artística ajusta meios para que as pessoas adquiram novos conhecimentos, estimulando a imaginação e a reflexão, tornando-as crítica diante de situações do cotidiano.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

ALMEIDA, G. P. de. Transposição Didática: por onde começar. São Paulo: Cortez, 2007.
BOURDIEU, P. O Campo Econômico. Campinas: Papirus, 2000.
BARBOSA, A. M.; CUNHA, F. P. (Orgs.). ABORDAGEM TRIANGULAR NO ENSINO DAS ARTES E CULTURAS VISUAIS. São Paulo: Cortez, 2010.
CARVALHO, L. M. A influência da arte na formação do indivíduo: experiências em ONGs. Intervenções: artes visuais em debate. Revista do Departamento de Artes Visuais, ano 2 e 3, n 2. João Pessoa: Editora Universitária, UFPB, 2009.
COELHO, H.C. O ENSINO DE ARTE NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS EM ESCOLAS PÚBLICAS DE ENSINO MÉDIO DE JOÃO PESSOA – PB – 2007 – 2012. 2013. 103 f. Dissertação – Universidade Federal da Paraíba, Paraíba. 2013.
http://sistemas.ufpb.br/sigaa/public/programa/defesas.jsf?lc=pt_BR&id=1880
_______, H.C. DEPOIS DA MANZUÁ: UMA EXPERIÊNCIA DE ENSINO DE ARTE COMUNITÁRIA. 2011. 11 p. Anais do 20º encontro da Associação Nacional de Pesquisadores em Artes Plásticas – ANPAP. Rio de janeiro. 2011. http://www.anpap.org.br/anais/2011/pdf/ceav/hamilton_freire_coelho.pdf
FREIRE, P. Ação cultural para liberdade e outros escritos. 10ª ed. São Paulo. Paz e Terra. 2002.
_____________. Pedagogia do oprimido. 11. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
FAZENDA, I.; ARANTES, C. (Org.). Integração e interdisciplinaridade no ensino brasileiro: efetividade ou ideologia? São Paulo: Loyola, 1979.
GIL, A. C. Como Elaborar Projetos de Pesquisa. 4ª Ed. São Paulo: Editora Atlas S.A., 2008.
HALBWACHS, M. A memória coletiva.Trad. Beatriz S. São Paulo: Centauro, 2006.
SODRÉ, Muniz. Best-seller: a literatura de mercado. 2ª Ed. São Paulo: Ática, 1988.

Hamilton Freire Coelho é Mestre em Ensino de Artes Visuais pelos associados, Universidade Federal da Paraíba – UFPB e Universidade Federal de Pernambuco – UFPE; Pós-Graduado em Artes Visuais: Cultura e Criação pelo EAD/SENAC/PB; Licenciado em Educação Artística pela UFPB – com especialização em Artes Plásticas; é Artista Plástico e Designer Gráfico.

hamiltonf.coelho@hotmail.com

 

(1) Manzuá é um engradado de varas empregado na pesca, onde o peixe entra por uma abertura e não encontra a saída. http://www.anpap.org.br/anais/2011/pdf/ceav/hamilton_freire_coelho.pdf

(2) Na EJA, a modalidade educação presencial segue o mesmo modelo da educação regular brasileira, já a modalidade semipresencial, o aluno frequenta a escola para tirar dúvidas sobre determinado assunto, antes da prova de supletivo.

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