ARTIGOS

Educação popular e estudos feministas: possibilidades para pensar ao largo da sociedade patriarcal

Amanda Motta Castro (1)

(…) podemos conseguir pensar ao largo do patriarcado. (BENSUSAN, 2004, p. 131)

MULHERES E HOMENS QUE PARTILHARAM EXPERIÊNCIAS

O que foi pensado e escrito nesta pequena reflexão foi desenvolvida a partir da minha tese de doutorado recentemente defendida no Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS. A tese intitulada Fios, Tramas, Cores, Repassos e inventabilidade: A Formação de tecelãs em Resende Costa/MG, teve como questão principal discutir como ocorre o processo pedagógico de ensinar e aprender da tecelagem manual em Resende Costa no Estado de Minas Gerais. O trabalho da tese foi realizada com base Educação Popular e nos Estudos Feministas, contudo, para além da preciosa teoria, o trabalho foi feito com a participação generosa de mulheres e homens que vivem no município de Resende Costa. Em sua grande maioria, são pessoas simples, de pouco estudo formal e grande coração e experiência, que abriram suas casas para mim e me contaram suas histórias. Histórias de vida que estão interpenetradas pelos fios da tecelagem manual.

Quando a conversa era com as mulheres, elas aconteciam, sobretudo, no quintal das casas onde ficam os teares, mas em geral, eu logo era convidada para um café com pão de queijo na mesa que quase sempre ficava na cozinha. Geralmente eu ficava ali, ouvindo, tomando café e ajudando no arremate final dos tapetes. A maioria das mulheres entrevistadas nunca saiu do estado de Minas Gerais, algumas não conhecem a capital Belo Horizonte e quase todas contaram que gostariam de conhecer o mar, este é um desejo da maioria das mulheres, que me perguntavam se eu conhecia o mar, se ele era realmente grande e se não dava muito medo de entrar nele. E claro, como toda boa mineira, me perguntavam se era frio. Todo mundo sabe que nós, das Minas Gerais, temos medo do frio.

Algumas mulheres com idade avançada me contavam sobre os amores antigos, como e por que se casaram, a maternidade, a dificuldade com os partos, a dor e alegria em criar os/as filhos/as. Também não faltavam casos de violência doméstica, problemas de saúde devido as muitas horas no tear, os amores proibidos e a velhice. Confissões em baixa voz das experiências de vida das mulheres.

No livro Me confieso mujer, Gaciela Hierro(2) (2004) faz a confissão em alta voz ao publicar seu texto que é uma retomada das suas experiências de vida. A autora escreve sobre filosofia, militância feminista, trabalho na UNAM(3), amores, abandono, partos, filhos, viagens, velhice e o enfrentamento com a morte. É um livro lindo, em que é preciso ter coragem para escrever e mais coragem ainda, para publicá-lo. Quando lemos a vida de uma grande filósofa, filha de pais ricos e casada duas vezes com homens ricos, como lhe recomendara sua avó, ia trabalhar todos os dias na UNAM com um chofer particular ao volante, vemos a proximidade da experiência de vida das mulheres.

Evidentemente as mulheres de Resende Costa são pobres, com pouco estudo e um trabalho duro todos os dias, até o final da vida, sem aposentadoria nem viagens de relaxamento e enriquecimento cultural e estão muito mais expostas à exploração e violência. Mas o fato é que, se analisarmos a vida privada – a vida do dia a dia, aquela cantada pelo cantor e compositor brasileiro Caetano Veloso: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” (VELOSO, 1986) – , vemos então que nossas experiências de vida se aproximam, que compartilhamos muito da vida, mesmo que as questões de classe, raça e étnica nos diferenciem. As mulheres ricas e pobres compartilham de semelhanças na vida privada, como a dificuldade das relações, violência doméstica, dificuldade em conciliar trabalho e vida cotidiana, cuidado de filhos e filhas, e as pressões do parceiro sobre sexo, atenção e abandono. O que mais me marca nas mulheres desta pesquisa é a simplicidade, a hospitalidade e a coragem de todos os dias tecerem suas vidas com força e fazendo uma arte criativa, mesmo com todas as dificuldades da vida.

Os homens que participaram desta pesquisa, em geral também tiveram uma vida de trabalho duro. Começaram a trabalhar cedo. A maioria deles trabalhou fora de Resende Costa, no ramo da construção civil e como caminhoneiros. Em geral, são homens com pouco estudo, simples e que trabalham bastante para sobreviver e sustentar suas famílias. Largaram os trabalhos predominantemente informais que tinham para voltarem à Resende Costa para trabalhar no ramo têxtil. Em geral se deram bem nos negócios. A maioria das lojas são de homens. E eles ganham mais que as mulheres, mesmo sem ter negócio próprio, porque a produção deles é maior.

As entrevistas com os homens também foram feitas no quintal da casa onde ficam os teares ou nas lojas. Diferente das mulheres, nossa conversa se encerrava ali, não tinha café, nem pão de queijo. Além disso, quase sempre os homens falavam comigo trabalhando, não tinham tempo a perder, falar muito é perder dinheiro. Costumavam responder o que eu perguntava, mas, no início – como todo bom mineiro – eram muito desconfiados sobre o que eu queria e o que ia fazer com “a voz deles”, então o tempo era maior em explicar para eles a pesquisa, que suas identidades não seriam reveladas e que eu não era da televisão.

Sandra Harding (2002), no seu artigo, Existe un método feminista? afirma que é um erro pensarmos que os homens não podem ter contribuições relevantes para os Estudos Feministas, deste modo, compreendemos que a escuta empírica com os homens foi importante e trouxe contribuições para pensarmos a experiência das mulheres dentro da tecelagem manual exercida nas montanas das Minas Gerais. O que mais me marcou na fala dos homens de Resende Costa foi à vontade de trabalhar, a agilidade em aprender um trabalho e a rapidez que pensaram em como poderiam fazer esse negócio render dinheiro. E eles fizeram isso.

Todavia o processo pedagógico da tecelagem ocorre pelas mãos das mulheres através de um processo pedagógico invisível e não-formal.

A IMPORTÂNCIA DA EXPERIÊNCIA

Tanto o feminismo quanto a Educação Popular apontam para a importância da experiência, pois ambas a consideraram como desencadeadora da produção do conhecimento. Por esse motivo, o conceito de experiência, ainda e sempre em construção, tem para o nosso grupo de pesquisa um investimento de estudo e debate. As mulheres têm uma experiência histórica e cultural diferenciada da masculina, contudo, nas margens onde as mulheres teceram suas experiências, encontramos experiências cruciais para a pesquisa com mulheres, o que nos leva a valorizar o conceito de experiência. Sobre este aspecto, Edla Eggert (2010) afirma:

A apreensão da realidade é o retorno ao ateórico, ou seja, o nível da experiência. Nesse sentido, desde a década de setenta, as feministas tinham muita consciência da importância da experiência na luta pela defesa da liberdade e equidade na vida das mulheres. A questão é transformar a experiência do cotidiano e das lutas em teoria não só para traduzi-las, mas para abrangê-las. (p. 7)

Percebemos que trazer o conhecimento ateórico, tecido em espaços do cotidiano, de onde surge a experiência das mulheres, tem sido uma luta feminista desde seu início, sobretudo no que tange a reconhecer as experiências das mulheres como conhecimento. Nesse sentido, tanto os Estudos Feminista como a Educação Popular rompem paradigmas estabelecidos ao (re)descobrir e (re)conhecer a vida e a produção das mulheres ao longo da história e de tantas outras que hoje fazem histórias e produzem. Em alguma medida, tentamos fazer com que suas produções saiam da invisibilidade, que se percebam como atuantes em sua própria história, porque esta não está dada. Como afirma Paulo Freire (1999), Gosto de ser humano, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que meu “destino” não é um dado, mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. (p. 58)

Essa busca por algo que precisa ser construído e que é de nossa responsabilidade requer alguns instrumentos, como afirma Eggert (2009): “buscar instrumentais de outros campos do conhecimento, para alimentar caminhos talvez inusitados; questionar as hierarquias; rever as margens onde as mulheres geralmente se encontram, no ato de produzir conhecimento (…)” (p. 32). Para Nancy Cardoso Pereira (2003), “experiência é entendida como uma operação interna– expressão do ser ou da consciência – que projeta uma subjetividade na forma de identidade essencial, de caráter universal, acessível a todos/as” (p. 196). Portanto, a experiência é desenvolvida na vida cotidiana de mulheres, é parte da subjetividade de cada um/uma, e é essa experiência que será base para os Estudos Feministas, na visão de Wanda Deifelt (2002). Sendo assim, podemos conceber a experiência como base, haja vista que tanto os Estudos Feministas como a Educação Popular são forjado, dentre outros elementos, no bojo da experiência.

POSSIBILIDADES PARA PENSAR AO LARGO DA SOCIEDADE PATRIARCAL

Michel Certeau (2000), em seu livro “A invenção do cotidiano”, explana que a vida cotidiana não é um tema muito nobre para as Ciências Humanas e há poucos anos o cotidiano passou a ter atenção. O autor destaca que teóricos/as do campo das Humanas, de várias correntes teóricas, não perceberam a vida cotidiana como um espaço repleto de inventividade. Tampouco perceberam que a teorização a partir do cotidiano leva a uma produção cultural anônima, desenvolvida com a criatividade de pessoas comuns e as narrativas do cotidiano das pessoas estão mais próximas da intensidade da vida real. Em Resende Costa, muitas vezes, atrás da casa existe um galpão geralmente aberto, ali se encontra o espaço onde ficam os teares, junto deles tem muita poeira, pluma, retalhos, fios. É um espaço de criação, produção e aprendizagem diferente dos espaços formais de ensino, haja vista que muitas pessoas, sobretudo mulheres, ensinam os processos da tecelagem a outras pessoas – não necessariamente da sua família. Carlos Rodrigues Brandão (2007) afirma que ninguém escapa da Educação, para ele:

O saber da comunidade, aquilo que todos conhecem de algum modo; o saber próprio dos homens e das mulheres, de crianças, adolescentes, jovens, adultos e velhos, o saber de guerreiros e, esposas; o saber que faz o artesão, o sacerdote, o feiticeiro, o navegador e outros tantos especialistas envolve, portanto situações pedagógicas interpessoais, familiares e comunitárias, onde ainda não surgiram técnicas pedagógicas escolares, acompanhadas de seus profissionais de aplicação exclusiva. (…) todas as situações entre pessoas e entre pessoas e a natureza – situações sempre mediadas pelas regras, símbolos e valores da cultura do grupo – têm, em menor ou maior escala, a sua dimensão pedagógica. (BRANDÃO, 2007, p. 20)

Em diversos lugares e espaços, a Educação está presente na vida de mulheres e homens e nos acompanha durante toda a vida. Por muito tempo, a Educação foi pensada na lógica tradicional. Freire denuncia e busca romper com essa lógica. Para ele, a Educação é sempre um ato político e defende que o ato educativo seja pautado na formação crítica dos educandos/as, o que ocorre por meio da problematização, da leitura do mundo, com o objetivo de levá-los ao que denomina processo de conscientização. Uma educação que acontece na relação de homens e mulheres entre si, mediatizados pelo mundo.

Isto posto, o processo de ensinar e aprender da tecelagem manual é realizado pelas mulheres no cotidiano privado, os ensinamentos sobre a tecelegam são passados de mãe para filha através das gerações num processo de formação que é composto pelas experiências e pelo desejo de partilhar, este processo tem como ponto de partida a experiência adquirida ao longo da vida. Um dos principais papéis reservados à educação consiste em potencializar a humanidade da sua capacidade de traçar caminhos para o seu próprio desenvolvimento. Neste sentido, tanto a Educação Popular como os Estudos Feministas nos leva a pensar ao largo do patriarcado que durante séculos invisibilizou o conhecimento das mulheres e de grupos marginalizados. Esse movimento é possível, pois a partir destes dois importantes lugares tanto teóricos como militante traz a relevância dos saberes tecido em espaços privados, logo, espaços tidos como óbvios espaços como o cotidiano artesanal e doméstico. Logo, esta reflexão de pensarmos a Educação Popular e os Estudos Feministas contribui, através da denúncia e do anúncio desenvolvidos por Paulo Freire em “Pedagogia do Oprimido” (2001), em que ele ressalta: Utopia é unidade de denúncia e anúncio. A ação problematizadora junto a indivíduos e grupos, que tenham no horizonte a humanização dos homens [sic], ao mesmo tempo em que denuncia uma realidade desumanizante e os instrumentos ideológicos de sua manutenção, anuncia uma realidade transformadora e mantém aceso o sonho de uma vida mais humana. (FREIRE, 2001, p. 70).

A partir deste ensinamento, procuramos visibilizar o invisível e, mediante a denúncia de que a sociedade patriarcal inferioriza o conhecimento das mulheres, buscamos o reconhecimento do artesanato como um fio que liga a um conhecimento complexo e estético. Além disso, essa reflexão leva a compreensão, na prática, que não existem saberes maiores, mais importantes ou significativos, mas saberes diferentes (FREIRE, 2001), e que sua hierarquização foi construída socialmente.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é educação. São Paulo: Brasiliense, 2007.

BENSUSAN, Hilan. Observações sobre a libido colonizada: tentando pensar ao largo do patriarcado. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 12, n. 1, jan.-abr. 2004.

CASTRO, Amanda Motta. Fios, Tramas, Cores, Repassos e inventabilidade: A Formação de tecelãs em Resende Costa/MG. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Centro de Educação. São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos, 2015.

CERTEAU, Michel. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 2000. DEIFET, Wanda. O corpo e o cosmo. In: TIBIRI, Marcia; MENEZES, Magali; EGGERT, Edla. As mulheres e a filosofia. São Leopoldo: UNISINOS, 2002.

EGGERT, Edla. SILVA, Marcia Alves da (Orgs.). A tecelagem como metáfora das pedagogias docentes. Pelotas: UFPel, 2009.

EGGERT, Edla. Trabalho precário x profissionalização de tecelãs: um desafio para a formação educacional no campo do artesanato gaúcho. In: Anais do VIII Congresso Iberoamericano de Ciência, Tecnologia e Gênero. Curitiba: UFTPR, 2010.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 25. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança. Um reencontro com a pedagogia do oprimido. São Paulo: Paz e Terra, 2003.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 45. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2001.

HARDING, Sandra. ?Existe uno método feminista? In: BARTRA, Elí (org). Debates em torno a una metodología feminista. UAM. Cidade do México, 2002. HIERRO, Graciella. Me confieso mujer. Cidade do México: DEMAC, 2004.

PEREIRA, Nancy Cardoso. Fragmentos e Cacos de Experiência1- Relações sociais de poder e gênero na teologia wesleyana. In: Revista Caminhando, v. 8, n. 2, 2003.

VELOSO, Caetano. Dom de iludir. Totalmente Demais – ao vivo – LP/CD Philips/Polygram, 1986.

(1) Doutora em Educação pela UNISINOS com bolsa CAPES com período sanduíche realizado no departamento de Antropologia da UAM. Tem‐se ocupado em pesquisar os processos de produção do conhecimento realizados por mulheres tecelãs, a fim de analisar a complexidade da aprendizagem nesse contexto em articulação com a Educação Popular e os Estudos Feministas. Contato: motta.amanda@terra.com.br

(2) Utilizo o nome e sobrenome do/a autor/a na primeira citação. Nas citações seguintes, os/as autores/as passam então a ser mencionados apenas com o último sobrenome. Seguimos a orientação formal da Revista Estudos Feministas de citar o nome completo, como uma forma inclusiva de perceber a produção científica. Paulo Freire faz referência à importância do lugar da linguagem inclusiva após ser criticado por sua linguagem machista por feministas norte-americanas que leram sua principal obra – Pedagogia do Oprimido (1964). Freire admite seu machismo e retoma esta questão na Pedagogia da Esperança, publicada em 1992 (2003, p. 67). Passando então a utilizar uma linguagem inclusiva.

(3) Universidad Nacional Autónoma de México (UNAM) http://www.unam.mx/

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