Silvio Premoli(*), Universidade Católica de Milão e Instituto Paulo Freire Italia
Tradução: Leandro Gaffo
Desde o distante 1999, quando comecei a colaborar com o Prof. Bellanova da Universidade de Bolonha na tradução italiana de “Pedagogia da Esperança” de Paulo Freire, nunca mais esqueci o discurso do operário pernambucano que explicou de modo inesquecível ao próprio Freire “afundando na cadeira” quanto seria necessário para um educador “estar a par da compreensão do mundo” da pessoa a quem se dirige (FREIRE, 2004, p. 27).
À época que trabalhava no SESI, Freire estava se ocupando da relação entre escolas e famílias, também para procurar compreender as “dificuldades que as famílias das áreas populares, enfrentando problemas, teriam para realizar sua atividade educativa. No fundo buscava um diálogo entre elas que pudesse resultar a necessária ajuda mútua (…)” (FREIRE, 2004, p. 20).
Uma noite, na Casa Amarela, Recife, Paulo Freire, debruçando-se sobre um estudo de Piaget, propôs a um público de familiares pertencente à classe pobre uma reflexão sobre a inadequação das punições corporais para as crianças. Fez um belo discurso, bem construído e argumentado, “defendendo uma relação dialógica, amorosa, entre pais, mães, filhos, que fosse substituindo o uso dos castigos violentos” (FREIRE, 2004, p.25).
Ao término de sua intervenção, um homem de cerca de 40 anos pediu a palavra colocando em evidência as diferenças entre o mundo do relator e o mundo do auditório, através da descrição das diferentes moradas deles: de uma parte, uma “casa de oitão livre”, cômoda, aconchegante, limpa, habitada por uma bela família com crianças bem vestidas e bem nutridas; d’outra parte, “espaços ínfimos em que os corpos se acotovelavam”, “falta de recursos”, falta de esperança, cansaço (FREIRE, 2004, p.26-7). E concluiu dizendo: “Se a gente bate nos filhos e até sai dos limites não é porque a gente não ame eles não. É porque a dureza da vida não deixa muito pra escolher”.
Ao término da difícil noitada, no caminho de retorno, tem lugar uma conversação determinante.
Naquela noite, já dentro do carro que nos conduziria de volta a casa, falei, um pouco amargo, a Elza que, só raramente não me acompanhando às reuniões, fazia excelentes observações que me ajudavam sempre.
– Pensei que havia sido tão claro – disse eu. – Parece que não me entenderam.
– Não terá sido você, Paulo, quem não os entendeu? – Perguntou Elza, e continuou: – Creio que entenderam o fundamental de sua fala. O discurso do operário foi claro sobre isto. Eles entenderam você, mas precisavam que você os entendesse. Esta é a questão (FREIRE, 2004, p.28).
Com frequência as viagens de automóveis são momentos fundamentais para se deixar interrogar sobre o que aconteceu. Frequentemente é imensamente útil poder contar com pessoas que lhe querem bem, que sabem iluminar o sentido daquilo que fizemos e daquilo que aconteceu, favorecendo a capacidade de se colocar em discussão, de surgir o educador reflexivo, de descentralizarmo-nos e, portanto, a possibilidade de crescer. De educar e deixar-se educar.
No meu trabalho me ocupo há diversos anos de crianças, adolescentes e famílias vulneráveis. Não me ocupo de alfabetização ou de batalhas políticas, porquanto no meu agir a intenção emancipatória, liberalizante, política esteja sempre presente. E não posso certamente dizer ter assumido uma aproximação freiriana como única referência do meu agir e do meu pesquisar. Por outro lado, para mim, Freire é uma referência indefectível. Em particular, emergem duas questões, que sinto sempre mais relevantes no trabalho com crianças e famílias, nas quais estou certo que a influência de Paulo Freire se encaixa muito com minha abordagem, com meu modo de pensar as ações sociais e educativas com as pessoas: se trata da participação dos garotos e garotas que são colocados fora da família, em acolhimento residencial ou em acolhimento familiar(1), por motivo de maus tratos dos próprios pais ou pela falta de cuidado; e do envolvimento daqueles pais, de cujos filhos são temporariamente afastados, em um processo de transformação e humanização, que possa consenti-los de reaver a capacidade de serem bons pais.
Em essência, trata-se de duas estratégias de ações que valorizam ao máximo os saberes experienciais das pessoas em direção de seu empoderamento, de sua conscientização, do seu “ser mais”.
A escuta coletiva de jovens afastados da família
A voz dos jovens e crianças, usuários dos serviços socioeducativos de proteção da infância (em particular, comunidade de acolhimento e acolhimento familiar), deve ser escutada e sua participação promovida (PREMOLI, 2012), como prevê a Convenção sobre Direitos da Infância e Adolescência (ONU, 1989). Trata-se, por um lado, de promover cidadania e dar valor também a quem está vivendo em maior dificuldade e, de outra parte, de receber deles, máximos especialistas dos serviços, indicações melhorativas. Se tudo isso toma uma dimensão coletiva e não simplesmente por meio de entrevistas individuais, emerge um superávit enorme em todos os níveis.
Valerio Belotti, sociólogo da infância da Universidade de Padova, há alguns anos realiza atividades de pesquisa-ação centradas sobre a metodologia da “escuta coletiva”, idealizada por ele (BELOTTI et al., 2012). A ideia é simples: reunir meninos e meninas distantes da própria família que vivem a experiência da comunidade residencial ou do acolhimento familiar permitindo a eles exprimir a própria visão da experiência fora da família, de reconhecer-se na experiência do outro (sentindo-se menos diferente e menos solitário), de ganhar um ponto de vista coletivo, que pode ser transformado em uma iniciativa pública. Os jovens distanciados, então, pedem a palavra e comunicam seus pensamentos aos educadores, assistentes sociais, psicólogos, gestores, políticos, funcionários, legisladores (policy makers), oferecendo sugestões para a transformação e melhora dos serviços dedicados a eles.
Tendo conduzido pessoalmente (com uma colega pedagoga, Vicenza Nastasi) um percurso de pesquisa-intervenção de “escuta coletiva”com um grupo de adolescentes em Milão (MINISTERO DEL LAVORO E DELLE POLITICHE SOCIALI & MINISTERO DELLA GIUSTIZIA, 2013), posso garantir e testemunhar que se trata de alguma coisa de extremamente potente, surpreendente, por uma via “terapêutica” – num sentido etimológico, a saber, que cuida – pelos próprios jovens. E sobretudo, cunhando o trabalho de grupo de modo “leve” e propositivo, não se “cai” em dolorosas confidências e tristes confissões depressivas, mas se ativam energias positivas, crescimento pessoal e competência socio-política.
Temos explicado aos jovens que o Ministro de Políticas Sociais gostaria de ouvir suas sugestões para melhorar as comunidades e acolhimentos e eles têm levado isso muito a sério, surpreendendo aos próprios educadores, que não esperavam que eles tomassem a palavra de modo tão consciente.
À guisa de exemplo, emergiu da voz dos participantes uma atenção particular aos confrontos de educadores profissionais e suas competências. É evidente que viver numa estrutura de acolhimento residencial por alguns anos expõe os rapazes ao conhecimento de um elevado número de profissionais, por causa da elevada rotatividade (turn over) que geralmente caracteriza a realidade do acolhimento. Daqui nasce uma “competência” relativa a compreender e avaliar (rapidamente) os adultos a quem são confiados e uma definição de “critérios de qualidade” do trabalho educativo.
As características irrenunciáveis de uma figura educativa profissional são, pelo dizer dos jovens, a paixão e a disponibilidade à negociação.
“Na velha comunidade te diziam ou faz assim ou nada…. aqui, em vez disso, te escutam e te dão conselhos, como se fossem seus irmãos maiores… Na outra comunidade se entendia que era apenas um trabalho: um educador te reconhecia somente na comunidade, se te visse fora era só um senhor que te conhecia…aqui os educadores mesmo que não estejam em seu turno fazem coisas para mim; por exemplo precisava adquirir o uniforme da escola e Massimo (o educador) me acompanhou a comprá-la mesmo não sendo seu turno. (…) Meia hora de estrada no carro e Massimo, mesmo no seu dia livre, me acompanhou a comprar as divisas e me trouxe de volta à comunidade” (Simona).
“Com os outros acontece de aumentar a voz, com Enrico os tons são sempre baixos” (Francesco).
Pais em busca de transformação…
Na Itália, nos últimos anos tem lugar por obra da mídia, um ataque fortíssimo aos interventores do Estado à tutela das crianças e jovens maltratados ou descuidados pelos próprios pais; em particular o ataque é direto contra as comunidades que acolhem crianças e adolescentes (child residential care).
Esta verdadeira agressão midiática se funde a ideia de que o Estado não deva intrometer-se na privacidade das famílias e que, onde seja inevitável que isto aconteça, as crianças sejam confiadas exclusivamente a uma outra família (foster care). Obviamente, há também uma motivação de ordem econômica que visa cortar ulteriormente os fundos públicos dedicados às despesas sociais. Estou convencido, também pela experiência direta, que na Itália seja fundamental promover fortemente o acolhimento familiar(2), mas contemporaneamente estou certo que a situação de algumas crianças mal tratadas são tão difíceis que o trabalho de acolhimento residencial profissional, competente e afetuoso, ao menos por um breve período, não deva ser substituído por outro recurso educativo. Certamente, existem comunidades de acolhimento inadequadas, que deverão ser fiscalizadas pelo Estado e eventualmente fechadas; paripasso existem lugares educativos residenciais que fazem um grandioso e insubstituível trabalho de acompanhamento em favor das crianças e jovens vulneráveis.
Existe, portanto, também um sentido parcialmente explorado da situação de distanciamento: o sofrimento e a solidão pois, muito frequentemente, abandonados a si próprios pelos serviços sociais, que apenas recentemente e num percentual ainda insuficiente começam a dedicar uma atenção à família de origem das crianças distanciadas.
Embora tratando-se de pais que tenham feito ações repreensíveis nos confrontos com os filhos, agindo contra eles de modo violento ou se esquecendo deles, é possível reler a situação destes adultos envolvidos nos procedimentos ativos do sistema de tutela dos menores em termos da dialética oprimidos/opressores. Inicialmente, se tratam de pais que, frequentemente, na sua propria infância experimentaram por sua vez uma situação de maus tratos ou de descuido, interiorizando de algum modo formas inadequadas de serem pais; portanto, interiorizando os opressores nos quais se transformaram quando se tornaram pais. Em segundo lugar, esses pais vivem uma situação de grande fragilidade na relação com o sistema de proteção das crianças, em particular no confronto do Juizado da Infância e Juventude e do Serviço social que, muitas vezes, agem de modo coercitivo, impondo as próprias escolhas, sobre a base do próprio poder institucional (BUNDY-FAZIOLI, BRIAR-LAWSON e HARDIMAN, 2009).
Sabemos entretanto que o envolvimento dos pais que têm filhos no âmbito da proteção dos menores (aqueles adultos frequentemente definidos como “multiproblemáticos” e pensados como irrecuperáveis) é um dos principais elementos de eficácia das intervenções socioeducativas (WILLUMSEN e SEVERINSSON, 2005).
Acho, então, que repensar o acompanhamento dos pais que se distanciaram dos próprios filhos, chegando a valorizar a competência adquirida de alguns (protagonistas de transformações positivas), fazendo surgir peer-tutor(3), se insere numa linha de envolvimento e escuta dos usuários (users) sempre mais presente na literatura internacional e nas boas práticas no nível global e penso que há uma carga revolucionária enorme para o setor de serviços socioeducativos para crianças e familias vulneráveis (por que requer mudar o próprio sistema e a abordagem dos operadores).
A ideia de trabalhar nessa direção, até investir em alguns desses (protagonistas de transformação positiva) na qualidade de peer-educators em favor dos outros “mamães e papais que não desempenharam bem sua função”(4) é revolucionaria para o sistema dos serviços. A cidade de Nova Iorque, seguindo esta intuição, revolucionou o próprio sistema de colocação alternativa à família com resultados surpreendentes (TOBIS, 2013).
Concluindo, posso dizer que para mim a referência constante de Paulo Freire significa compartilhar a compreensão do mundo das pessoas a quem se destina uma reflexão ou uma ação educativa. Nisto me sinto freiriano até a medula.
(1) Na Itália existem estas duas formas de acolhimento dos jovens afastados da familia, as comunidades de acolhimento (child residential care) que são casas com uma equipe multidisciplinar nas quais recebem atendimento profissional e os acolhimentos familiares (foster care) nos quais são acolhidos por famílias provisórias. (Nota do Tradutor)
(2) Sobre a introdução do acolhimento familiar no Brasil se ve o artigo de Jane Valente (2012).
(3) Peer-tutor e peer-educator (abaixo), sao expressões em inglês que se referem pessoas escolhidas e recrutadas dentro de um publico-alvo de um projeto para serem capacitadas e se tornarem agentes facilitadores ou parceiros dos processos de aprendizagem do próprio projeto. (Nota do Tradutor)
(4) A expressão original em italiano é «mamme e papà un po’ così e un po’ cosà» que expressa algo como “mamães e papais assim, assim”, ou seja, que não conseguiram levar seu papel a contento, ou que são “mais ou menos”. Preferimos traduzir sem utilizar uma expressão idiomática equivalente em português para dar mais sentido ao texto. (Nota do Tradutor)
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
BELOTTI, V., MILANI, P., IUS, M., SATTA, C., & SERBATI, S. (2012). Crescere fuori famiglia. Lo sguardo degli accolti e le implicazioni per il lavoro sociale. Regione del Veneto / Osservatorio Regionale Politiche Sociali, Venezia.
BUNDY-FAZIOLI, K., BRIAR-LAWSON, K., & HARDIMAN E.R. (2009). A qualitative examination of power between child welfare workers and parents. British Journal of Social Work, 39, pp.1447-1464.
FREIRE, P. (2004). Pedagogia della Speranza. Edizioni Gruppo Abele, Torino.
MINISTERO DEL LAVORO E DELLE POLITICHE SOCIALI & MINISTERO DELLA GIUSTIZIA (2013). Terza relazione sullo stato di attuazione della legge 149/2001. Roma, pp.77-102.
PREMOLI, S. (2012). Bambini, adolescenti e famiglie vulnerabili. Nuove direzioni nei servizi socioeducativi. Franco Angeli, Milano.
PREMOLI S. (2012), Coordenação de unidades residenciais para crianças em situação de acolhimento residencial em Itália: o caso da cooperativa social «La Grande Casa» nos eixos de um percurso de pesquisa-formação. In M. M. Calheiros, M. Vaz Garrido & S.Vieira Santos, eds., Crianças em risco e perigo: contextos, investigação e intervenção (Vol. 2). Lisboa, Sìlabo (pp. 77-99).
TOBIS, D. (2013). From pariah to partners. How parents and their allies changed New York City’s Child Welfare System. New York, Oxford University Press.
VALENTE, J. (2012). Acolhimento familiar: validando e atribuindo sentido às leis protetivas. Serviço Social & Sociedade [online], 111, pp. 576-598. Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-66282012000300010&lng=en&nrm=iso.
WILLUMSEN, E., SEVERINSSON, E. (2005). Parent’s collaboration and participation in a residential child care setting. International Journal of Child & Family Welfare, 1, pp. 19-31.
* RESUMO BIOGRÁFICO DO AUTOR
Silvio Premoli, Profesor de Pedagogia Social e Intercultural, Universidade Católica de Milão e Fundador do Instituto Paulo Freire – Italia.
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