Ligia de Carvalho Abões Vercelli(1)
Amanda Maria Franco Liberato(2)
Resumo
O presente texto tem por objetivo discutir a formação do professor que atua no Projeto Ler e Escrever desenvolvido por diferentes universidades parceiras do Programa Ler e Escrever do governo do Estado de São Paulo sob a perspectiva freiriana. Partimos do pressuposto que a relação teoria e prática se estabelece por meio da ação-reflexão-ação vivenciados do contexto escolar.
Introdução
Entendemos que o respeito ao aluno começa no momento em que o professor oferece os instrumentos necessários à sua autonomia, assim, as discussões em sala de aula não dicotomizam homens e mundos, ao contrário, os enxergam como um só.
Os educadores têm um papel relevante para que os alunos desenvolvam sua criticidade, apurando seu olhar diante da realidade à medida que reflexões pertinentes tragam um novo olhar para o mundo, pois “transformar a experiência educativa em puro treinamento técnico é amesquinhar o que há de fundamentalmente humano no exercício educativo: o seu caráter formador.” (FREIRE, 1996, p. 33).
Freire, em sua concepção, defende a pedagogia dialógica, pois entende que aluno e professor são sujeitos do ato cognoscente. Como seres inacabados, os homens se fazem e refazem na interação com mundo, objeto de sua práxis transformadora. “Na verdade, o inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida, há inacabamento. Mas só entre mulheres e homens o inacabamento se tornou consciente.” (FREIRE, 1996, p. 50). A prática pedagógica passa a ser uma ação política possibilitando a transformação da realidade vivida, porém não é isso que encontramos ao analisar as avaliações externas.
O Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (SARESP), a Prova Brasil, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), o Indicador de Analfabetismo Funcional (INAF) e o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), apontam que há muitos alunos que não atingem o básico exigido nestas avaliações, portanto são necessárias ações pedagógicas que contribuam no desenvolvimento da competência da leitura e escrita.
Por meio destas avaliações observa-se o nível de aprendizagem dos alunos, uma vez que são tabulados os resultados com a finalidade de oferecer subsídios para mudanças nas políticas públicas, cujo intuito é o de universalizar o acesso à educação, tornando-a igualmente de qualidade a todos.
Com base nos resultados obtidos nas provas aplicadas pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) entre os anos de 1995 e 2005, sendo que estas avaliações acontecem bienalmente, podemos observar que houve uma queda dos índices de aprendizagem na educação brasileira. E, este fato, também é verdadeiro quando analisamos apenas o Estado de São Paulo.
Por conta dos resultados obtidos e de alguns pontos críticos no que diz respeito à alfabetização, entre eles: os alunos frequentam a escola, mas aprendem pouco; a escola, por vezes, forma analfabetos funcionais; os alunos que não se alfabetizam na idade certa (8 anos), acabam por se desmotivar e muitos não concluem o ensino fundamental (evasão escolar); em 2007, o Governo do Estado de São Paulo instituiu o Programa Ler e Escrever.
1- O Programa Ler e Escrever do Governo do Estado de São Paulo
Tal Programa tinha por objetivo alfabetizar todas as crianças até oito anos de idade matriculadas regularmente nas escolas estaduais até o final de 2010, bem como oferecer todo o suporte necessário para a recuperação dos demais alunos da rede, visando autonomia na leitura e na escrita.
O Programa Escola Pública e Universidade na Alfabetização – Bolsa Alfabetização consiste em uma das principais ações do Programa Ler e Escrever, cuja proposta prevê a participação de estudantes dos cursos de Pedagogia e Letras nas salas de alfabetização (classes de Projeto Intensivo no Ciclo (PIC) e 2º ano / 1ª série), comumente conhecidos como aluno pesquisadores (AP), possibilitando ao futuro professor alfabetizador uma leitura da realidade na qual irá atuar. Um de seus objetivos é aliar teoria e prática, já que oferece aos estudantes de Pedagogia ou Letras a oportunidade de participar do cotidiano de uma sala de alfabetização, auxiliando a professora regente.
O aluno pesquisador, de acordo com a legislação vigente, deve receber uma formação pelas universidades que estudam e, é neste momento, que ocorre a troca de conhecimentos uma vez que atuam em diferentes realidades e podem interagir uns com os outros, mediados pelo professor orientador.
O papel do professor orientador é o de propor uma discussão entre os alunos pesquisadores, com a finalidade de levá-los a refletir sobre a realidade encontrada na sala de aula e as teorias aprendidas na graduação. Esta troca possibilita a compreensão do aluno pesquisador enquanto educador, uma vez que o Programa tem por objetivo auxiliá-los nesta formação inicial da carreira docente.
O que importa, na formação docente, não é a repetição mecânica do gesto, este ou aquele, mas a compreensão do valor dos sentimentos, das emoções, do desejo, da insegurança a ser superada pela segurança, do medo que, ao ser “educado”, vai gerando a coragem. (FREIRE, 1996, p. 45)
O aluno pesquisador tem a oportunidade de realizar uma pesquisa participante, uma vez que sua prática torna-se fonte de conhecimento e a escola é o espaço principal para que isto ocorra. O conhecimento prévio e as vivências do aluno devem ser levados em conta, pois, desta maneira, podemos despertar o interesse do mesmo no processo de ensino e aprendizagem.
De acordo com Freire (1996, p. 63-64)
[…] Não é possível à escola, se na verdade, engajada na formação de educandos educadores, alhear-se das condições sociais culturais, econômicas de seus alunos, de suas famílias, de seus vizinhos.
Não é possível respeito aos educandos, à sua dignidade, a seu ser formando-se, à sua identidade fazendo-se, se não se levam em consideração as condições em que eles vêm existindo, se não se reconhece a importância dos “conhecimentos de experiência feitos” com que chegam à escola. O respeito devido à dignidade do educando não me permite subestimar, pior ainda, zombar do saber que ele traz consigo para a escola.
A criança quando chega à escola, traz consigo as experiências vivenciadas na socialização primária, portanto, cabe ao professor escutá-las, e partindo da experiência empírica, propor atividades que possibilitem a relação com os conteúdos escolares. O aluno precisa compreender que o que se ensina na escola tem relação direta com a vida, e vice-versa, de forma a aguçar sua curiosidade na busca de respostas às suas incertezas.
Enquanto formadores, devemos nos questionar qual o ensino ideal para nossos alunos, uma vez que almejamos formar cidadãos conscientes para a vida e não, indivíduos alienados e sem criticidade. Ao formar um aluno pesquisador, fruto do Programa Ler e Escrever, é de vital importância lembrar que estes, em pouco tempo, estarão em salas de aula alfabetizando crianças e, sem uma formação sólida e crítica, não terão os instrumentos necessários para contribuir na formação das crianças.
Como professor num curso de formação docente não posso esgotar minha prática discursando sobre a Teoria da não extensão do conhecimento. Não posso apenas falar bonito sobre as razões ontológicas, epistemológicas e políticas da Teoria. O meu discurso sobre a Teoria deve ser o exemplo concreto, prático, da Teoria. (FREIRE, 1996, p. 47-48)
Entendemos que muitos alunos da graduação, chegam às escolas para lecionar, sem nunca terem vivenciado tal momento. Portanto, é relevante destacar que o aluno participante do Programa Ler e Escrever tem a oportunidade de vivenciar o processo de ensino e aprendizagem dentro de uma sala de aula, contando, ainda com a intervenção de um professor regente.
As reuniões de formação, ministradas pelo professor coordenador da universidade participante, tem o papel de instrumentalizar criticamente o aluno pesquisador, uma vez que este precisa ter um olhar crítico perante a realidade para observar as práticas do professor regente, agregando à sua formação o que julgar pertinente. Desta forma, o aluno pesquisador vai construindo sua identidade com autonomia e criticidade.
As universidades, então, devem assumir o papel de facilitadores desta interação entre teoria e prática, mostrando aos futuros professores a importância de realizar o estágio obrigatório para conclusão da graduação, de forma efetiva, como é o caso do Programa Escola Pública e Universidade na Alfabetização – Bolsa Alfabetização.
Considerações Finais
O intuito deste texto foi de apenas provocar a discussão sobre a importância da formação inicial do professor alfabetizador, uma vez que o entendemos como uma peça importante no processo de ensino e de aprendizagem. Freire afirma que “[…] minha presença no mundo não é a de quem a ele se adapta, mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujeito também da História.” (FREIRE, 1996, p. 54)
O autor nos instiga a sermos melhores a cada dia, já que nos faz refletir criticamente sobre nossa prática pedagógica, bem como no trato com os alunos. Somos sujeitos da nossa própria história e, consequentemente da nossa aprendizagem à medida que participamos ativamente deste processo.
Suas obras são extremamente importantes, pois trazem à tona discussões pertinentes a respeito da educação, nos despertando a propor um ensino significativo para o aluno. E, sendo relevante para o aluno, oferecerá os instrumentos necessários à formação plena dos indivíduos.
O professor precisa acabar com os discursos vazios, e trazer à tona discussões relevantes para a formação emancipatória e crítica dos discentes. Criticamos a política, mas a reproduzimos em nossas práticas. Vivemos na minoridade social, mas não somos capazes de lutar pelos nossos ideais, desta forma contribuímos para a hipocrisia e deixamos de lado a oportunidade de assumir responsabilidades frente às mudanças, tão necessárias, no país e, principalmente, na educação.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
FREIRE, Paulo Reglus Neves e SHOR Ira. Medo e Ousadia: o cotidiano do professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1967.
_____________. Pedagogia do oprimido. 12a edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
_____________. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
_____________.Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
______________. Educação e atualidade brasileira. 3ª ed. São Paulo: Cortez, 2003.
(1)Doutora e mestre em educação pela Universidade Nove de Julho (Uninove). Professora do Programa de Mestrado em Gestão e Práticas Educacionais (PROGEPE) da Uninove. Contato: ligia@uninove.br
(2)Mestranda em Educação pelo Programa de Mestrado em Gestão e Práticas Educacionais (PROGEPE) da Universidade Nove de Julho (Uninove). É professora PEB I no Governo do Estado de São Paulo desde maio de 2010. Contato: amandaliberato10@yahoo.com.br.
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