MEMÓRIA

Chile, a “Pátria Acadêmica” de Paulo Freire

chile2A possibilidade humana de existir
– forma acrescida de ser –, mais do que viver,
faz do homem um ser eminentemente relacional.

Paulo Freire

O Chile foi, como relatou um dos fundadores do Instituto Paulo Freire – Brasil, Professor José Eustáquio Romão, a “Pátria Acadêmica” do educador Paulo Freire. Foi em terras chilenas que Freire escreveu seus livros, “Educação como prática da liberdade”, “Extensão ou Comunicação” e, por fim, aquele que o deixou reconhecido internacionalmente, “Pedagogia do Oprimido”.

Paulo Freire no Chile (1964-1969)

Na edição anterior do Boletim Unifreire esta seção descreveu o processo de “imigração forçada” do educador Paulo Freire. Sob guarda do Embaixador da Bolívia, Freire deixou São Paulo em setembro de 1964. Pouco tempo depois de sua chegada a Bolívia sofreu um golpe político, o que fez com que, em novembro de 1964, Freire encontrasse asilo político em Santiago, Chile.

Ao instalar-se no país o educador retomou as práticas pedagógicas que haviam sido interrompidas desde sua perseguição pela ditadura brasileira. Foi no Chile que Freire conheceu Jacques Choncol, vice-presidente do Instituto de Desenvolvimento Agropecuário (INDAP). Choncol lhe ofereceu emprego na instituição. Freire também integrou o Ministério da Educação do Chile e era consultor da Unesco junto ao Instituto de Capacitación e Investigación em Reforma Agrária.

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Capa de caderno do IDAC, onde Paulo Freire trabalhou.

 

O trabalho junto aos camponeses e agrônomos no Chile rendeu ao “educador-agrônomo”, como Choncol chamou Paulo Freire, a elaboração do livro “Extensão ou comunicação?”. Nele, Freire aborda as relações entre agrônomos e camponeses. As observações feitas nos campos chilenos marcaram fortemente o que se tornaria central e característico dos escritos de Freire, a opressão. O escritor desenvolveu a concepção, sintetizada em sua obra, a medida em que viu os técnicos colocando-se como superiores aos camponeses. Estes, por sua vez, transformados, pela estrutura agrária tradicional, em “coisas”. Uma vez coisificados, os seres humanos transformam-se em objetos de manobra daqueles que detêm o poder sobre o andar de suas vidas. Foi com este propósito que Freire escreveu “Extensão ou comunicação?”, denunciando a não comunicação do técnico com o camponês e anunciando o dever da ação educativa nessa relação.

Foi também no Chile que Freire escreveu o livro “Educação como prática da liberdade”, uma continuação da análise da opressão, do diálogo e da liberdade. Nele, Freire defende a libertação das correntes que impedem a transformação social e explicita a necessidade de fazermos escolhas: “Opção por esse ontem, que significa uma sociedade sem povo, comandada por uma elite superposta a seu mundo, alienada, em que o homem simples, minimizado e sem consciência desta minimização era mais coisa que homem mesmo, ou opção pelo amanhã”.

Em solo Chileno Freire escreveu a obra que o tornou reconhecido mundialmente como um dos principais escritores no que se refere à educação a serviço da sujeitação do ser humano, ou seja, a educação, sendo aquilo que mantém a estrutura, é a arma mais poderosa para desmantelar aquilo que sustenta. Assim, Freire escreveu de próprio punho, em folhas avulsas, um livro que o deixaria reconhecido ao redor do mundo inteiro, “Pedagogia do Oprimido”. O educador, neste livro, coloca não somente a opressão como questão central de seu estudo, como também o oprimido. É este último que ganha papel de protagonista na obra.

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Militares chilenos queimando livros. Koen Wessing – Nederlands Fotomuseum.

Freire escreveu os manuscritos em um época politicamente conturbada no território chileno. Corriam boatos de que o educador havia escrito um livro contra o Chile, a população e o governo ditador de Pinochet. Para desmentir o boato e garantir a segurança dele e de sua família, Paulo Freire convidou seus amigos pessoais, Jacques Choncol e Maria Edy, para passarem uma tarde em sua casa, exatamente quatro anos após sua chegada ao Chile. Ao final do encontro Freire entregou a Choncol um manuscrito com uma dedicatória ao amigo. A carta escrita por Freire a Chonchol pode ser encontrada na seção Memória da edição 3 deste Boletim. Nela, consta: “Queria que vocês recebessem estes manuscritos de um livro que pode não prestar, mas que encarna a profunda crença que tenho nos homens, como uma simples homenagem a quem muito admiro e estimo.”

Correndo risco de ser preso e morto pela ditadura de Pinochet, o educador deixou o Chile em abril de 1969.

O contexto atual e a inauguração do Instituto Paulo Freire-Chile

Ainda em 2015, o Chile vive resquícios da ditadura de Pinochet (1973-1987). Passando pelo período de denúncias sobre corrupção, a presidenta Nueva Mayoría promulgou em 27 de abril deste ano a emenda constitucional que encerra o ciclo neoliberal imposto pelos dispositivos constitucionais do ex-ditador. Além de exigir um mínimo de 40% de candidaturas femininas e flexibilizar a formação de partidos, a emenda abole o sistema distrital- binomial, que forçava os partidos a juntarem-se em coalizões devido a necessidade de alcançar 34% de votos para eleger um candidato.

No mesmo período de extinção dos ciclos autoritários em território chileno, comemora-se a inauguração do Instituto Paulo Freire- Chile (IPF-Chile). A criação da instituição foi aprovada durante o último Encontro Internacional do Fórum Paulo Freire, realizado em Turim, Itália, em setembro de 2014.

O lançamento do IPF-Chile significa, também, a presença de Freire em um país extremamente importante para o autor, não apenas por sua vida mas também pelo que Freire produziu de conhecimento em seu território. Sobre o evento de lançamento, o professor José Eustáquio Romão relata:

Da esquerda para a direita: José Eustáquio Romão, Paulo Freire e Moacir Gadotti, presidente de honra do Instituto Paulo Freire - Brasil. Foto disponível em Acervo Paulo Freire.

Da esquerda para a direita: José Eustáquio Romão, Paulo Freire e Moacir Gadotti, presidente de honra do Instituto Paulo Freire – Brasil. Foto disponível em Acervo Paulo Freire.

Foi um evento muito bonito e emocionante. Criaram o Observatório da Educação Chilena Paulo Freire. Sempre pensei que sendo a verdadeira “Pátria Acadêmica” de Paulo Freire, a criação do IPF- Chile era tardia. No entanto, como nada é por acaso, a retomada democrática que o Chile está vivendo, apesar de todo o lixo (neoliberal) histórico que a ditadura de Pinochet deixou no país, que ainda luta para a redemocratização das mentes, este é o momento do legado freiriano retornar àquele país andino.

Contato com Instituto Paulo Freire- Chile: direccion@piie.cl

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