ARTIGOS

A ARTE QUE UNE

Joëlle Tremblay (1)

O presente artigo trata da prática artística, participativa, relacional e contextual que chamo de «a arte que une». Ao descobrir os textos de Paulo Freire, por ocasião da minha pesquisa de Doutorado, fiquei emocionada ao ver o quanto seu pensamento educativo e filosófico podia elucidar os valores subjacentes do funcionamento da arte que une. Sem ter a pretensão de conhecer bem Freire, sei que uma conivência havia nascido, que um diálogo tinha começado. Ele se tornou como um «amigo», apoiando «o artista» nas suas escolhas e iluminando «a pesquisa acadêmica». Estou convencida que os escritos de Paulo Freire são necessários para refletir sobre os desafios do mundo atual. Inicialmente, minhas pesquisas artísticas de Doutorado serão descritas suscintamente. Em seguida, tratará das origens de minha prática, em que se fixam valores. Depois, um relato do projeto «Árvores do Tempo que Passa» será feito. Para terminar, indícios de reflexão serão colocados no engajamento da arte que une pela liberdade que ela induz e pelo valor dado aos participantes que se constroem com um «ser mais» (2).

Iniciada há mais de 30 anos, minha pesquisa artística permitiu construir a arte que une. Esta arte oscila entre dois polos que se nutrem um ao outro. De fato, a criação se realiza de uma parte na solidão do ateliê, e de outra com as variadas comunidades, no espaço social, em colaboração com órgãos comunitários, meio escolar etc. A linguagem que utilizamos em conjunto é antes de tudo visual; o pensamento ali se enraiza.

Polo 1: 18 março 2007, 10h00 (2015, work-in-progress), óleo sobre ripa de cedro, 10 cm x 30 cm.

Polo 1: 18 março 2007, 10h00 (2015, work-in-progress), óleo sobre ripa de cedro, 10 cm x 30 cm.

Polo 2: Detalhe do projeto em ação Táctico e Tique-Taque (2007), Escola Primária St-Nazaire, látex sobre contraplacado. Pintura mural realizada com crianças da pré-escola (quatro e cinco anos) com a colaboração de Ludger Dubé (diretor), de Amélie Fontaine (professora) e de todo o pessoal.

Polo 2: Detalhe do projeto em ação Táctico e Tique-Taque (2007), Escola Primária St-Nazaire, látex sobre contraplacado. Pintura mural realizada com crianças da pré-escola (quatro e cinco anos) com a colaboração de Ludger Dubé (diretor), de Amélie Fontaine (professora) e de todo o pessoal.

Minha pesquisa de Doutorado me permitiu traçar um retrato da arte que une, de representar os sete atos da «grande oficina» da criação com comunidades e de descrever os princípios sobre os quais se baseiam. As etapas do processo de criação abrem um espaço singular e um espaço de liberdade. Segundo nós, os artistas, a arte permite como diz o escrito de Heinich (1998), « repensar e às vezes abandonar ou inverter um certo número de posturas, rotinas, hábitos mentais» (p. 8). É assim que, em algumas circunstâncias, a arte resiste e dá «uma possibilidade de reinventar o mundo» que é palpável, visível. Este pensamento, que resiste aos determinismos, se une aos elementos importantes da filosofia de Paulo Freire.

As pedras fundamentais da prática da arte que une, foram postas no começo dos anos 80 a partir de uma colaboração entre o Teatro de l’Oiseau e o ATD Quarto Mundo – uma ONG que luta contra a pobreza(3). O subproletariado das cidades da Europa nos ensinou na época que uma das únicas linguagens que restava para comunicar e ter acesso ao que é especificamente humano poderia ser a arte. Lugar de dom e de compartilhamento, pudemos observar que este tipo de prática desencadeia alegria revelando uma humanidade frágil. Esta última é infinitamente preciosa no coração do mundo abalado por importantes questões políticas e sociais, num contexto em que a pressão de um certo pensamento comercial parece destruir o próprio pensamento da humanidade.

As linhas que seguem descrevem um projeto que se realiza em colaboração com David Régnier do movimento ATD Quart Monde, em Montreal, no bairro Hochelaga- Maisonneuve. O início do projeto se deu a partir de um encontro com o artista, o responsável pelas «bibliotecas de rua» e os moradores do lugar. As pessoas do bairro manifestaram a necessidade de tornar mais bonitos os espaços existentes embaixo das escadas dos seus HLMs (habitações de aluguéis módicos). De fato, haviam vários imóveis e muitas entradas. Criamos coletivamente murais coloridos começando por expor no espaço que dá para o salão comunitário. Juntos decidimos conceber árvores transformadas pelas estações do ano. Este tema desperta para a consciência do tempo que passa, na natureza e na ecologia; ele devolve a beleza do vivo e a presença do parque, onde crescem imensas árvores e se reúnem vários moradores do bairro: crianças, jovens, adultos, pessoas idosas; mas também prostitutas, traficantes de droga etc.

Árvores do tempo que passa - Pintura látex sobre contraplacado e madeira Ver uma parte deste projeto on line: http://www.atdquartmonde.ca/noel-creatif-a-la-bibliotheque-de-rue/

Árvores do tempo que passa – Pintura látex sobre contraplacado e madeira
Ver uma parte deste projeto on line: http://www.atdquartmonde.ca/noel-creatif-a-la-bibliotheque-de-rue/

No momento em que estou escrevendo estas linhas, o projeto está em curso. Vamos continuá-lo no Parque Edmond Hamelin, durante o Festival dos Sabores Compartilhados (4). Nas semanas que precedem a realização, vou fazer uma curta estada no parque, como artista: estar presente para ter o tempo do encontro, para nos conhecermos e criar laços de confiança. Este tempo, que parece inútil e perdido, é necessário para conciliar o projeto às múltiplas realidades humanas à vida concreta e para lhe dar sentido. Depois, será o tempo da organização material e humana, com os potes de pintura e a gama de cores, os pincéis, os suportes, os elementos de inspiração e a constituição de uma equipe. Prepararemos diversos lugares de desenho e de pintura, o canto das pranchetas. Enfim, os ateliês de criação se desenrolarão com aqueles que quiserem participar. Tudo se terminará com uma festa em torno dos diferentes projetos e dos murais expostos nos espaços embaixo das escadas.

Complementando a alegria, que é vivida quando da realização e do orgulho do resultado exposto no espaço público, se instala uma forma de gravidade (Tremblay, 2013, p. 252). A obra cria uma distância, permitindo ver de outra maneira, invertendo as perspectivas. As possibilidades «difusas» de uma liberdade individual e coletiva «se expõem». Mostrar seu trabalho, é então tomar a palavra. Isso que damos para ser visto, nos diz respeito também, devolvendo-nos o que nos concerne. Recuperar o espaço, «escrever» os muros, pintá-los, são ações de transformação do espaço público; a reapropriação democrática dos lugares torna-se assim um ponto de referência metafórico. Isso integra o pensamento de Freire (1997), para quem «existir humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo» (p. 217) (5). A capacidade de juntos colocarmos gestos de criação pode ser vivida como uma «emancipação» coletiva, um engajamento. A resistência tratada aqui se faz por meio da arte, um processo fecundo, pela natureza imprevisível, que «designa o momento em que pela ação se produz o ser » (Wright, p. 9). Tomar consciência das possibilidades de mudança que juntos podemos iniciar, por pequenos toques, pacientemente, como o pintor, ajudando-nos mutuamente; viver um tempo de referência em que isso foi possível, permite crer que alguns terão a coragem de se engajar na realização de outros projetos. Optei por concluir dando a palavra a esse homem do teatro brasileiro que trabalha em Vidigal, um dos bairros desfavorecidos do Rio de Janeiro, uma vez que reencontro o essencial das minhas crenças em relação ao sentido da arte que une:

Quando você vive acreditando em qualquer coisa, você dá um sentido à sua vida na Terra. As dificuldades não param nunca, você conseguiu escalar uma montanha e logo uma outra surgiu, milhões de outras montanhas lhe desafiam. Resistimos, é isso, passo a passo, resistimos.[…] O objetivo básico é que todos possam sobreviver com dignidade, por meio da arte se possível. Acho que no grupo temos um ponto de referência muito importante, recuperaremos o amor (6).

(1) Joëlle Tremblay é professora-titular na Escola de Artes Visuais da Universidade Laval. Obteve o Doutorado em Estudos e Práticas das Artes na Universidade do Québec em Montreal em 2013. Inter e multidisciplinaire, seu trabalho de criação se engaja há trinta anos no espaço social. Participativo e contextual, ele é feito em colaboração. Assume a forma de pinturas murais, de performances, de instalações e eventos; relacional ele tem a forma de diálogos. As relações entre a arte e a sociedade, a prática e reflexiva da criação, a formação de professores e a pedagogia da arte são seus focos de interesse.

(2) Conceito definido por Freire (1974) como algo a mais de humanidade e de liberdade (p.38).

(3) Numa ação de recusa à miséria e de compartilhamento dos saberes , o ATD Quarto Mundo agrega as famílias – que vivem em total miséria – às pessoas de horizontes sociais, culturais, políticos e espirituais diversos. O órgão tem um estatuto de consultor nas Nações Unidas e no Conselho da Europa.

(4) No fim do verão, o ATD Quart Monde organiza jornadas de atividades de animação a fim de permitir aos moradores do bairro e aos cidadãos de outros meios um encontro para compartilhar seus talentos, suas paixões e suas habilidades. Ateliês esportivos, manuais, científicos são propostos a todos aqueles que o desejam. Este tempo convivial e festivo provoca uma troca entre pessoas que a vida cotidiana os separa.

(5) Freire se opõe à « pedagogia da escritura » , que reduz a pessoa a escutar e a ler o que os outros têm a lhe dizer, eventualmente a « ler as instruções» (Taylor, 2000, p. 3).

(6) Citação extraída do documentário sobre o ecologista Pierre Dansereau, Quelques raisons d’espérer de F. Dansereau.

REFERÊNCIAS:

Dansereau, F. (diretor). (2001). Quelques raisons d’espérer (Algumas razões para esperar) (videocassete 57162301). Montreal : Office national du film du Canada (Serviço Nacional do Filme do Canadá);

Freire, P. (1974). Pédagogie des opprimés (Pedagogia dos oprimidos). Complemento de Conscientisation et révolution (Conscientização e revolução) (Maspero, trad.). Paris : La découverte Maspero (A Descoberta Maspero). (Original publicado em 1970);

Freire, P. (1997). Le dialogue, essence de l’éducation vue comme pratique de la liberté (A Dialogicidade – essência da eduçacão como prática da liberdade), em R. Tessier et Y. Tellier, Théories du changement social intentionnel. Participation, expertise et contraintes, p. 217-255. Québec, QC : Imprensa da Universidade do Québec (Teorias da mudança social intencional. Participação, expertise e constrangimentos);

Heinich, N. (1998). Ce que l’art fait à la sociologie. Paris : Minuit. (O que a arte faz para a sociologia); Taylor, P. (2000, 18-23 setembro). Un olhar sobre Paulo Freire. Congresso internacional, Universidade de Evora. Consulta http://www.barbier-rd.nom.fr/pedagocaresse.html

Tremblay, J. (2013). L’art qui relie, un modèle de pratique artistique avec la communauté : principes et actes (A arte que une, um modelo de prática artística com a comunidade : princípios e atos). Tese de Doutorado inédita, Universidade do Québec em Montreal. Acessível em http://www.archipel.uqam.ca/5713/ Wright, S. (2001). « Le dés-œuvrement de l’art », em Mouvements, #17, set-out. (A«ociosidade» da arte).

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