ARTIGOS

CAMINHOS PARA UMA ECOEDUCAÇÃO SUSTENTÁVEL

Gabriela Maria Diaz

 

  1. Uma proposta de Educação Ecocentrada

    Por Ecoeducação devemos entender um aprofundamento do conceito do “eu”, em que ele deixa de ser “ego”, para gdiaz.prof@gmail.com1gdiaz.prof@gmail.com1 “eco”, inserindo-se num contexto ecológico e sabendo que não é só uma questão pessoal e social, mas planetária. Atualmente, já temos fundamentos que embasam de forma científica essa relação integradora do indivíduo e a natureza.

    Na construção de nossas vidas nesse novo entorno, não podemos continuar excluindo como até agora, toda retroalimentação ao sentimento, à emoção e à intuição como fundamento da relação entre os seres humanos e a natureza (GUTIÉRREZ; PRADO, 2013, p.47).

    Uma educação ecocentrada consiste em permitir aos educandos a liberdade de, por um lado, incorporar o repertório ancestral e as experiências coletivas de toda a humanidade e, por outro, expressar, avaliar e criticar construtivamente o caráter histórico dessas mesmas experiências e repertórios, a fim de preservar o que realmente vale a pena para a vida. Com isso, o educando chega ao ponto de projetar no mundo seus próprios conhecimentos e vivências, de forma a alinhar seu projeto de vida com um projeto socioecológico de preservação da própria Terra.

    Sendo assim, a educação reforça o projeto de planetariedade (e reciprocamente), em que o sujeito deixa de ser inerte perante o planeta para assumir um papel ativo e social no processo emancipatório humano. No entanto, fica clara a necessidade de rompimento com os princípios atuais da Educação.

    Nesse contexto, hoje, sabemos da necessidade da implementação da Ecologia dos Saberes, conforme proposta de Moraes (2008), a partir da revalorização de todos os saberes, enfatizando a continuidade dos saberes populares até os saberes científicos, propõe-nos uma nova perspectiva para a transdisciplinaridade. Afinal, a comunicação transdisciplinar é um caminho para uma visão integradora, a qual é essencial para um futuro sustentável.

    Na mesma direção, a Unesco sugere que a educação se desenvolva em quatro modalidades: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a ser e aprender a viver juntos. Leonardo Boff cita, também, um quinto elemento: aprender a cuidar da Mãe Terra e de todas as formas de vida e de todos os seres.

    A situação mudada do mundo exige que tudo seja ecologizado, quer dizer, cada saber e cada instituição devem oferecer a sua colaboração para proteger a Terra e salvar a vida humana e o nosso projeto planetário.

(LEONARDO, Boff 2012 pg. 150.)

    Portanto, o momento ecológico pede mais experiência, transdisciplinaridade e ecoformação.

    A ONU proclamou os anos de 2005 a 2014 a Década da educação para o desenvolvimento sustentável. A UNESCO afirma tratar-se de uma proposta transversal, termo que coincide com o que estamos chamando aqui de transdisciplinar, isto é, proposta que atinge a todas as disciplinas para que cada uma delas dissemine, com seus recursos próprios, a construção de um futuro sustentável.

    Em 2005, essa instituição publicou um documento em que declara a urgência de se tomar medidas eficazes na educação, considerando que:

    Seu objetivo global consiste em integrar os valores inerentes ao desenvolvimento sustentável, em todas as suas faces de aprendizado com vistas a fomentar as mudanças de comportamento necessárias para se ter uma sociedade mais sustentável  e justa para todos. (Documento 171EX/7, 12/04/2005).

    Vemos como é vasta essa agenda, ficando evidente a impossibilidade de compartimentá-la em uma disciplina escolar. Há a total necessidade da transdicisplinaridade.

    A educação agora sabe da necessidade de incluir as quatro grandes tendências da ecologia: a ecologia ambiental, a social, a mental e a integral ou profunda, que discutem nosso lugar na natureza, e nossa inserção na “complexa teia das energias cósmicas” (Boff, 2012), conscientes de que não se trata apenas de introduzir corretivos ao sistema que criou a atual crise ecológica, mas, sim, educar para sua transformação.

  1. Caminhos para uma Ecoeducação Sustentável

    Uma mudança na estrutura educacional se faz necessária. Temos de incluir os aspectos mais relevantes e saber que nos encontramos em um momento de decisão para nossa própria sobrevivência. Tudo isso implica uma educação participativa, cotidiana e consciente. O sentir a vida de uma forma tateável favorece a troca de experiências, pois de fato nós vivemos essas experiências.

    Uma orientação ecológica de educação visando à sustentabilidade demanda transformar nossos métodos de ensino. Os estudantes já não podem aprender apenas dentro das salas de aula ou fechados em suas bibliotecas, em seus laboratórios ou diante dos programas de busca da internet. Devem ser levados a experimentar na pele a natureza. (BOFF, 2012 p.153).

    Hoje, são os cidadãos dos grandes centros urbanos (e, entre eles, as crianças) que contribuem para a degradação planetária, através dos hábitos de vida consumistas e do falso estado de conforto que eles trazem. E, a partir do momento em que os alunos deixam de vivenciar a natureza de fato, a educação também pede socorro. A sala de aula atual ainda é um espaço frio e fechado, não se conectando, em essência, com os sentimentos de respeito aos ecossistemas e cidadania planetária. Se o professor não tem a proatividade de interagir com o espaço, torna-se, assim, mais lamentável o espaço interativo do próprio aluno para estudar. Como é possível que as crianças tenham acesso aos princípios aqui defendidos, numa estrutura que parece prisional?

    Por isso, podemos estabelecer em aula um ponto de partida, criando mandamentos, dizeres, fórmulas rituais, como se fossem pilares estruturantes, a serem respeitados no decorrer das aulas.

    A título de exemplo, vou relatar minha estratégia pessoal. Criei alguns mandamentos, os mandamentos da aula de arte, que são ilustrados pelos alunos em seu mini-caderno, que chamamos Diário de Bordo, em que os alunos relatam todas as nossas experiências e convívios artísticos e planetários, tendo total liberdade de expressas quaisquer manifestações nesses campos.

    O primeiro mandamento é: O Planeta Terra é a Nossa Casa, para que a criança tenha ciência de que a casa dela não é a residência localizada num determinado bairro da cidade, mas sim um imenso organismo vivo, o qual, se estiver doente, afetará a todos, não importando onde esteja a residência particular de cada um.

    O segundo mandamento é: Nós Somos o que Nós Comemos. O que você entende por isso? Muitos educandos já analisam essa pergunta com sabedoria, porque sabem, de fato, que a alimentação atual é destruidora em diversos aspectos, desde a extração de sua matéria prima, passando por sua produção e industrialização, até a sua comercialização. Eles mesmos apontam isso, de uma forma natural, conscientes disso. E eu como educadora, faço-os refletir, em grupo, sobre a mudança e a necessidade de se alimentar de uma forma mais saudável e orgânica.

    O terceiro mandamento é: Você Colhe o que Você Planta. Afinal, se semearmos maldade, o que colheremos? A criança já coloca diversos pontos positivos e negativos nas atitudes dela com a sociedade. A partir do momento em que eu destrato o amigo, vou colher isso futuramente. E o que mais espanta é a consciência de cada criança ao relatar suas experiências e saber identificar suas próprias fraquezas, com enfoque na sua melhoria.

    Por fim, o quarto mandamento, diz: Somos Todos Um. Significa ter ciência de que somos um único organismo manifestado em diversas formas e maneiras, uma unidade primeva. Relato aos alunos que hoje já há base científica para esta ideia, expressa no alfabeto genético que compartilhamos com todos os seres vivos. Essa unidade real é base para os processos de religação e de respeito ao próximo, que é efetivamente um irmão. Num certo sentido, não somos melhores que uma formiga, um cavalo ou uma coruja, apenas temos uma função e um lugar diferentes na unidade.

    Outro ponto importante consiste no uso dos materiais. Toda a comunidade escolar tem que estar consciente de que o material utilizado para a realização de maquetes, feiras de ciências, espetáculos teatrais, trabalhos artísticos e exposições deverão ser originários de sucatas e materiais recicláveis. A escola deve ser a primeira a perder a vaidade de utilizar materiais comprados, que já são lixo. Após obter a nota da disciplina específica, o aluno joga o trabalho no lixo. Pedir para o aluno comprar lixo? Por quê? Quais valores são ensinados com essas atitudes? Consumo e desperdício.

    Sempre que possível, deve-se recolher o material necessário junto à comunidade local (padarias, supermercados, indústrias, comércio em geral). Com isso, cria-se, na escola, um sucatário, espaço em que todos os professores, de todas as disciplinas possam livremente usar os materiais recicláveis e reaproveitáveis em seus projetos pedagógicos. Caixa de ovo substitui muito bem o isopor. Papelão de caixas usadas é uma excelente matéria prima para substituir a cartolina em cartazes. Tampas plásticas de garrafa podem ser usadas para jogos de tabuleiro. A diversidade da sucata estimula a criatividade do aluno, de construir a partir do que está disponível.

    Um desafio maior, mas que deve ser enfrentado é proporcionar aos alunos a experiência de sentir a Terra pela terra. Se queremos que, de fato, a educação e o planeta se unam com um propósito de salvarem-se mutuamente, devemos ter um projeto que reconecte as crianças das grandes cidades com a mata em seu estado virgem, não em parques ou mini-bosques, praças e jardins botânicos, que favorecem uma zona de conforto, criando a ilusão de contato natural, mas onde a própria natureza irá fazer um trabalho que nenhum educador, ao falar, conseguirá, qual seja, atingir a alma e a essência do ser. Não somos mais capazes, pela pura argumentação, de evocar a comoção necessária para uma ruptura com os atuais padrões de comportamento destrutivos. Devemos considerar seriamente a possibilidade de saídas pedagógicas para cachoeiras, grutas, chapadas, grandes lagos, nascentes, praias e comunidades indígenas e calungas (espaços de ancestralidade). Trata-se de locais fora da experiência urbana ordinária, e que apresentam a natureza em seu próprio equilíbrio. Esses locais, sobretudo pela grande extensão do trajeto que leva da cidade à natureza, deixando-nos pelo menos uma hora fora de contato com os produtos da intervenção humana, favorecerá a reconexão do homem com a natureza. Só a Terra em seu estado “bruto” irradiará a energia que tocará a alma de cada indivíduo que está no intuito dessa ligação.

    E a criança, por sua inocência e esperança, está na fase exata para isso, que a torna mais apta que qualquer um para essa religação instintiva, quase umbilical, com a mãe natureza.

    A terra educará para o bem-viver, que é a essência de viver em harmonia com a natureza, aprenderemos a dividir e repartir equitativamente, com os demais seres, os recursos da cultura de desenvolvimento educacional sustentável.

Considerações finais

    Cabe a nós, educadores propiciar aos alunos uma nova esfera, um caminho diferente do proposto hoje. Ver na educação uma trajetória perspicaz e de êxito. Unir forças entre as diversas disciplinas (transdisciplinaridade), pelo processo de sensibilizar, conscientizar, preparar, informar e educando aluno em fase de socialização e alfabetizá-lo ecologicamente no espaço comum da escola e nos espaços naturais.

    Essa é uma semente que deve ser plantada na consciência dos pequenos agentes disseminadores, para que tenham um novo olhar sobre as ações das antigas gerações, rumo a uma aliança de fraternidade.

    Pensar de uma forma ecologicamente correta é imprescindível para alcançar a sustentabilidade.

 

Referências bibliográficas

Carta da Ecopedagogia: em defesa de uma Pedagogia da Terra. Disponível em: <http://www.paulofreire.org>. Acesso em: 10 jan. 2015

GUTIÉRREZ, Francisco; PRADO, Cruz. Ecopedagogia e cidadania planetária. São Paulo: Cortez, 2013.

MORAES, M. C. Ecologia dos Saberes: Complexidade, transdisciplinaridade e educação. São Paulo: Antakarana e ProLibera, 2008.

Carta da Terra. Disponível em: <http://www.paulofreire.org>. Acesso em: 10 jan. 2015

BOFF, Leonardo. Sustentabilidade: O que é: O que não é. Petrópolis: Vozes, 2012.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança, 17 Edição. São Paulo:Paz e Terra, 2011.

Gabriela Maria Diaz possui graduação em Artes Visuais pela Faculdade Paulista de Artes (2012), graduação em Pedagogia pela Universidade Nove de Julho (2015). Atualmente é professora adjunta ao Colégio Jardim Anália Franco em São Paulo e Idealizadora do projeto “Sustentabiliarte: Arte educação Sustentável”. Tem experiência na área de Educação, com ênfase no ensino médio, fundamental e educação infantil, atuando principalmente nos seguintes temas: Arte Educação Sustentável, Sustentabilidade Educacional, Educação Popular, Educação Ambiental e oficinas recreativas sustentáveis.

Contatos:

www.sustentabiliarte.com

gdiaz.prof@gmail.com

Sobre almeck

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