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IPF Portugal: exemplo de compromisso com a reinvenção do legado freireano

    Logo na sessão que marcou o início das atividades, o IPF Portugal começou por ser descrito por Luiza Cortesão como sendo “uma surpresa face a algo que vai surgir, surpresa de um caminho ainda não trilhado, de um desafio do desconhecido que se desenrola à nossa frente”.

    Recorrendo a um texto do conhecido poema “Arena contra Zumbi” de João Cabral de Melo Neto, procurou-se nessa altura descrever como se desejava que o IPFP viesse a ser. Seria uma instituição que viesse a ter uma atuação que pretendesse descobrir, a cada passo, o caminho mais adequado de intervenção social e educativa. Afirmou-se que se imaginava e desejava que no futuro o IPF Portugal fosse:

(…)Belo porque é uma porta abrindo-se em mais saídas
Belo como a última onda que o fim do mar sempre adia.
É tão belo como as ondas em sua adição infinita.
Belo porque tem do novo a surpresa e a alegria.
Belo como a coisa nova na prateleira até então vazia.
Como qualquer coisa nova inaugurando o seu dia.
Ou como o caderno novo quando a gente o principia.”

    Descrevia-se assim esta instituição que estava a surgir comparando-a, simbolicamente a um “caderno novo” de páginas brancas onde colectivamente se iria “escrever e pôr a funcionar o projeto do novo Instituto Paulo Freire de Portugal”.

    Ao longo dos seus quase 15 anos de existência, o IPFP tem mantido as anunciadas vertentes de pesquisa, de intervenção e busca de algo de novo e melhor. É nesse sentido que se tem desenvolvido todo um conjunto de atividades que vão ao encontro das intenções expressas nos objetivos que justificaram e suportaram a sua formação. Tendo como grandes finalidades preservar, recriar e trabalhar com o pensamento freiriano, os objectivos então enunciados, e que continuam a nortear à ação do IPFP, são os de:

  • – organizar reuniões, colóquios e outras atividades similares;
  • – promover ações de formação e círculos de estudos, no quadro de uma educação permanente;
  • – conceber e desenvolver projetos de investigação e de intervenção;
  • – elaborar e publicar livros e outras formas documentais de expressão;
  • – constituir comissões especializadas e grupos de trabalho para análise e tratamento de questões ligadas à educação;
  • – criar estruturas e desenvolver atividades que estimulem o intercâmbio com associações congêneres, nacionais e internacionais, e reunir experiências e soluções inovadoras;
  • – elaborar e executar programas de divulgação do ideário freireano;
  • – prestar serviços de assessoria e consultadoria;
  • – dinamizar o Centro de Recursos Paulo Freire da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

    Sediado numa instituição universitária (a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto), o IPFP articula as suas ações sobretudo com o Centro de Investigação e Intervenção Educativas desta instituição e com o Centro de Recursos Paulo Freire. Neste contexto, o IPFP desenvolve, portanto, as suas atividades com uma dupla intenção: não só a de contribuir para a identificação, análise e denúncia de problemas sociais e educativos existentes, mas também com a firme preocupação de neles procurar intervir através de diversificadas atividades.

    É neste quadro alargado de atividades que o IPFP tem, por exemplo, desenvolvido projetos de pesquisa/intervenção, cursos de pesquisa/formação, tem organizado conferências, ciclo de conferências sobre temas geralmente polémicos, bem como workshops e exposições. Tem procedido à publicação de artigos, de livros e capítulos de livros e tem organizado uma coleção de livros que o próprio Instituto edita. Mais recentemente, tem ainda, procurado dar notícias destas atividades através de um site que está, atualmente, em organização.

    Só a título de exemplo de alguns dos projetos de pesquisa/intervenção que foram desenvolvidos poderá citar-se: projeto SEARA (Sucesso Educativo e Autonomia Relativa Alargada), EXACET (Excelência Académica e Escola para Todos), METUP (Mulheres Estudantes-Trabalhadoras na Universidade do Porto), Migrações e Desenvolvimento que se realizou no âmbito da Iniciativa Comunitária EQUAL, e, mais recentemente, o projeto “Raízes” que decorreu, durante mais de dois anos, no quadro de Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura, e que deu origem a cinco publicações[1].

    Alguns destes projetos a que se fez referência têm sido apoiados e/ou subsídiados por instituições como, por exemplo, pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação Cidade de Guimarães.

    Como exemplo de projetos de âmbito geograficamente mais alargado internacional será ainda de mencionar a participação em diferentes projetos europeus como é o caso do Intensive Programme Erasmus.

    Os ciclos de conferência, os debates abertos a sócios e não sócios, e os workshops têm representado, também, uma atividade constante e intensa do IPFP. Têm-se realizado ações subordinadas a títulos tais como: “Exclusão ou exclusões”, “Arte e Intervenção”, “Educação, Resistência e Ação”.

    As publicações que têm sido produzidas foram, como se referiu o resultado, não só dos projetos desenvolvidos, mas também dos volumes que compõem a coleção “Querer Saber”, cujo sexto volume sairá este ano, analisando ecos de Freire e pensamento feminista.

    Será também de mencionar a participação que o Instituto tem tido nos diferentes Fóruns Internacionais Paulo Freire, quer na organização de um deles (o IV Fórum Interncional que teve lugar no Porto) quer na participação que tem sido dada nos outros Fóruns por sócios e outros elementos da direção.

    Esta breve referência a algumas das atividades desenvolvidas poderá, de certo modo, compor uma imagem do que, apesar das dificuldades enfrentadas, tem vindo a ser realizado pelo IPFP.

    Paulo Freire afirmou um dia que “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. É bem neste quadro de consciência de quanto há factores macroestruturais que nos ultrapassam condicionando fortemente o que acontece na sociedade, que o IPFP procura agir de forma que algumas das atividades empreendidas lúcida e combativamente procurem contribuir para que, apesar de tudo, alguns aspectos de um mundo menos injusto vão acontecendo.

[1]          Cortesão, Luiza (Ed.), Carvalho, Alexandra, Silva, Rosário, Neves, Francisco, & Vieira, Clara (2012). Olhando e escutando Guimarães: Caleidoscópio de fragmentos culturais. Guimarães: FCG e IPFP/CRPF/CIIE.

Cortesão, Luiza (Ed.), & Neves, Francisco (2012). A marcha da fome de Pevidém. Guimarães: FCG e IPFP/CRPF/CIIE.

Cortesão, Luiza (Ed.), & Silva, Rosário (2012). ‘O mundo é de todo o mundo’: Narrativas de migrantes em Guimarães. Guimarães: FCG e IPFP/CRPF/CIIE.

Cortesão, Luiza (Ed.), Vieira, Clara, & Sampaio, Maria da Luz (2012). Quando eu nasci, aquela fábrica já ali estava: Memórias, vivências e opiniões sobre o trabalho na indústria, em Guimarães. Guimarães: FCG e IPFP/CRPF/CIIE.

Cortesão, Luiza (Ed.), Carvalho, Alexandra, Silva, Rosário, Neves, Francisco, & Vieira, Clara (2012). Oh mãe, deia-nos pão!. Guimarães: FCG e IPFP/CRPF/CIIE.

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