ENCONTROS FREIRIANOS

Encontro de educadores “Cuba-Brasil”

cuba-brasil

Educadores brasileiros e cubanos no “Mes de la Cultura Brasileña”, em Cuba

 

     Em outubro de 2015 seis educadores de Niterói-RJ (Brasil) foram recebidos na  Associação de Pedagogos de Cuba (APC), convidados para um intercâmbio com educadores cubanos durante o “Mes de la Cultura Brasileña” naquele país.

     Os/as educadores/as brasileiros/as foram recebidos por educadores cubanos que atuam na educação infantil, secundária básica, politécnica e superior, além de representantes de centros de pesquisa, docentes das áreas da saúde e educação física, e também por um jornalista da Rádio COCO.

     Logo no começo do Encontro o grupo brasileiro foi presenteado com tirinhas de papel e marcadores com pensamentos de Paulo Freire. Na sequência houve uma apresentação de todos os presentes, com falas de Liusbel Cascajal Frómeta, da Escola Primária “Juan Hidalgo Gato” e Roberto Balón Reyes, da Secundária Básica “Jesús Menéndez” dos municípios de Plaza  e Centro Habana, respectivamente, assim como da delegação do Instituto Politécnico “Aguado y Rico” e da Presidenta do Conselho da Escola Primária “Mártires Latinoamericanos”, Olga Morales Pacheco, colaboradora da Fundação “Nicolás Guillén”.

     Depois disso o coletivo de educadores cubanos ofereceu uma atividade cultural aos seus convidados brasileiros e, em seguida, compartilhou os objetivos do Encontro: analisar a relação atual entre escola, família e comunidade no Brasil e em Cuba e os desafios de cada contexto para fortalecer esta relação. Além disso, deveriam ser identificadas ações que poderiam ser realizadas em conjunto para ajuda mútua entre os dois países neste sentido.

     Os convidados brasileiros da Escola “David Capistrano” deram início às apresentações ressaltando os seguintes aspectos:

– O grupo procede de uma escola tradicional, com bom trabalho educativo e uma equipe docente estável, com comprovada experiência e grande compromisso com o fazer educativo.

– A instituição tem sido dirigida ao longo dos anos por mulheres, com resultados muito bons.

– A educação no Brasil atravessa uma delicada e complexa situação: a coexistência de dois sistemas educativos que por sua vez estão muito estratificados e desconexos: a educação pública e a privada. A educação pública se organiza em instituições custeadas e atendidas pelos poderes municipal, estadual e federal. Existe uma política pública de educação no país mas em cada estado e município ela é interpretada e colocada em prática de forma diferente. Os estudantes que vêm de escolas privadas, dirigidas à elite brasileira e à classe média, são os que mais tem possibilidade de entrar nas universidades públicas, que têm melhor tradição e qualidade, em detrimento dos filhos de classes sociais mais humildes, em especial os afrodescendentes, que têm acesso ainda muito limitado às universidades públicas.

     Com respeito à relação escola-família-comunidade, o grupo brasileiro destacou:

– A família brasileira está submetida a todos os desígnios do capital e está focada na busca de sua subsistência, deixando para a escola a responsabilidade pela educação.

– A escola recorre à família apenas quando o estudante tem problemas, nunca a convoca para parabenizá-la, reconhecer avanços que seus filhos tenham conquistado.

– Existem representantes da família na escola, mas a representação não é funcional, funciona mais como algo decorativo.

– A articulação organizada e consciente da escola, da família e da comunidade, é vista pela elite brasileira como uma ameaça.  A elite tem medo de que o poder popular cresça a partir das bases, por isso não incentiva este tipo de gestão educativa nas escolas fazendo com que existam apenas iniciativas isoladas, provocadas por gestores com iniciativa própria.

     Na sequência, a equipe cubana falou sobre a essência do Projeto de Pesquisa Nacional “Transformar para Educar” (TransEduca), apresentando-o como uma alternativa criada para enfrentar a falta de comunicação entre a escola-família-comunidade e mobilizar ações que as articulem. Ressaltaram que a educação em Cuba tem uma grande diferença em relação ao Brasil, pois o sistema nacional socialista garante educação como direito humano para todos/as, sem distinção de raça, credo religioso, concepção filosófica, gênero etc. A Revolução Cubana tratou de devolver à vida social ativa quase 1 milhão de analfabetos, herança de mais de 400 anos de colonização da Espanha e neocolonização dos EUA.  A  Associação de Pedagogos de Cuba  (APC) promove e assume o projeto de pesquisa “TransEduca” como uma alternativa que facilita o protagonismo da família e da comunidade na vida educativa da escola, no intuito de ir derrubando as fronteiras entre estes três espaços em cada diferente contexto.

     A incorporação dos Conselhos de Escola no Projeto se dá de maneira voluntária, a partir da interpretação de cada coletivo sobre a pertinência deste projeto para melhorar sua gestão educativa. O TransEduca desenvolve a metodologia da Educação Popular. A partir dos valores da pedagogia cubana e latinoamericana, o projeto realiza um processo que tem por base a contextualização: cada Conselho de Escola tem a oportunidade de pensar criticamente seu contexto, identificar fortalezas, satisfações, problemas e insatisfações, investigar as causas destas situações e construir soluções segundo suas necessidades e possibilidades, além de avaliar e sistematizar seu próprio caminhar. Nessa perspectiva são realizadas as seguintes etapas:  aproximação, diagnóstico, planejamento, execução, avaliação e sistematização, perpassadas pelos “eixos”: participação, integração e comunicação.

     Principais resultados já conquistados pelo “TransEduca”:

– Família, escola e comunidade uniram-se para trabalhar criativamente por uma educação mais eficaz.

– Desenvolvimento de valores como responsabilidade, cooperação e sentido de pertencimento.

– A escola e a comunidade contribuíram para sensibilizar a família sobre sua função educativa.

– A família trabalha por uma educação de maior qualidade, envolve-se neste processo.

– A apropriação da concepção de “família” como primeira e eterna escola.

– Foi ampliada, gradualmente, a participação do gênero masculino nas tarefas do Conselho de Escola.

– Aumento dos indicadores de eficiência escolar (assistência de estudantes e professores, promoção e retenção escolar)

– O Ministério de Educação de Cuba reconheceu, em seus documentos orientadores, a viabilidade do Projeto TransEducação como alternativa metodológica para trabalhar a relação escola, família e comunidade.

     Durante o debate os participantes destacaram:

– A pertinência do Projeto para o desenvolvimento de valores nas famílias e contribuição para fortalecer a identidade cultural e o sentido de pertencimento.

– Exortação aos colegas brasileiros para que lutem por seus ideais apesar do meio hostil existente no país, pois possuem confiança na sua qualidade humana e profissional, como dignos representantes do magistério brasileiro.

– Defenderam a ideia de criar uma rede virtual de comunicação através de listas de correio eletrônico, foros de discussão, facebook e outras alternativas das novas tecnologias.

– A diferente estrutura social cubana, de tipo socialista, garante uma educação mais coerente com os objetivos assumidos pelo país.

     Finalmente os colegas brasileiros fizeram uma doação de material docente, fruto de seus recursos pessoais, destinada ao Projeto TransEduca e à Sede Nacional da Associação de Pedagogos de Cuba. Kjean Carlos Schimidt da Rosa destacou que a doação realizada pelo grupo causava naquele momento “um aperto no coração” pois “não representava nada em comparação ao que tem o povo de Cuba, que possui o principal: cidadãos e cidadãs preparados, principal recurso de qualquer sociedade”.

     Concluído o Encontro restaram registros fotográficos, os contatos compartilhados e o sonho de ter uma família, uma escola e uma comunidade muito melhores.

DrC. Mariano Isla Guerra.
Coordinador. Proyecto de Investigación Nacional “TransEduca”.
Asociación de Pedagogos de Cuba. La Habana. Cuba. 

Contato a coordenação do Projeto TransEduca: maislaguerra@gmail.com

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