A Nicarágua é um país que pertence à América Central, a região mais estreita das Américas, um país com cerca de 6 milhões de habitantes e que faz fronteira ao Sul com a Costa Rica e ao Norte com Honduras. Um território pequeno em extensão e população, mas gigantesco em contrastes. Um país de beleza natural exuberante, reconhecido como “a terra dos lagos e de vulcões”, privilegiadamente banhado por dois oceanos, Atlântico e Pacífico.
E seu povo? Algo mágico, encantador! Um povo alegre e muito festivo, mas acima de qualquer coisa, um povo resiliente, capaz de seguir adiante em paz e feliz, a despeito de tão longo e profundo sofrimento consequente de grandes feridas, perdas materiais e de vidas humanas ao longo de sua história de guerras e de catástrofes naturais. Capaz de dar ao mundo seus testemunhos, enquanto grande coletivo que continua “lutando” cotidianamente para superar dificuldades, mantendo lindos sorrisos em seus rostos. Em uma muito curiosa maioria, diríamos uma maioria quase assustadora, de risos naturais, leves, doces, indubitavelmente francos. Este sim, talvez seja “um povo semente”, com enorme potencial coletivo para a construção de uma nova humanidade e outro mundo possível. Todavia, ainda hoje, a despeito de tantos esforços e avanços incontestáveis, chegam a ser desoladoras as imagens, quando comparamos aqueles poucos que têm quase tudo com todos os demais nicaraguenses, que têm quase nada… Enfim, dão muito que pensar os aspectos de leveza e doçura, geralmente presentes nos semblantes do povo nicaraguense.
“El Pueblo de Nicarágua, maestro de sí mismo”
O triunfo da revolução aconteceu em 19 de julho de 1979 e logo após, no início de 1980, o povo seria “mestre de si mesmo”, afirmou Julio Cortázar, respeitado escritor argentino, em um texto que faz parte de seu livro “Nicarágua, tão violentamente doce”. O livro foi traduzido e publicado em 1987, pela editora Brasiliense, e o original em espanhol está disponível na internet. Todavia é importante dizer que encontramos essa mesma afirmativa em outros artigos e achamos prudente não precisar exatamente a sua autoria.
O escritor Julio Cortázar, ao desenvolver a narrativa, esclarece os motivos pelos quais afirmaria isso, por que apenas poucos meses depois da vitória da revolução que libertou o país da dinastia somozista, a qual durara mais de 40 anos, o país se preparava de imediato para uma campanha gigantesca de alfabetização, com o objetivo de converter a totalidade da nação em uma extraordinária escola, onde a metade da população ensinaria a ler e a escrever à outra metade.
O autor conta que só uma vez havia visto isso na América Latina, uma mobilização tão dramática e emocionante em busca de uma autêntica tomada de consciência em nível nacional, agora se referindo a Cuba, de 1959, cujo povo havia sido ator de um esforço descomunal destinado a sair do atraso e da ignorância. E cuja experiência a Nicarágua se propunha repetir, ou, na opinião dele, talvez superar. Dois países pequenos da América Latina mostrando um caminho que um dia deveriam seguir muitos outros, num continente onde o analfabetismo não é apenas um obstáculo ao progresso e ao desenvolvimento das nações, mas um fator limitante das buscas por suas raízes e identidades profundas.
Paulo Freire na Nicarágua: “Esta revolução é uma criança linda, pura e bela, e temos que apoiá-la”.
Foi de uma maneira muito entusiasmada que, em 1980, Paulo Freire se dirigiu a Fernando Cardenal, sacerdote jesuíta, colaborador histórico da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), então responsável por coordenar a campanha nacional de alfabetização e a orquestrar, desse modo, uma voz uníssona e fenomenal que deveria reunir 50% da população nos esforços conjuntos para alfabetizar a outra metade.
Após ouvir o testemunho de Cardenal sobre as intenções da revolução nicaraguense e vários outros fragmentos de memórias dessa época, das dificuldades e pedras encontradas no caminho, das alegrias e vitórias, e sobre o mais importante desafio do período, a cruzada de alfabetização, Paulo Freire disse: “esta revolução é uma criança linda, pura e bela, e temos que apoiá-la”. (Conforme entrevista publicada na Revista Digital “Envío”, da Universidade Centroamericana (UCA), edição n° 281, de agosto de 2005)
À época, Fernando dava aulas na Universidade Autônoma da Nicarágua (UNAN) e teve muitas oportunidades nas quais aproveitava para falar a respeito do mestre Paulo Freire como um dos maiores filósofos da Educação na América Latina. Ele conhecia muito bem os fundamentos do método freiriano: “esse conceito que (Paulo Freire) explica tão bem, denominado “conscientização”, que é o processo de tomada de consciência, para que as pessoas passem de uma consciência mágica para uma consciência crítica”.
Para esse grande desafio nacional, foi criado um grupo de trabalho. Um total de 40 dirigentes pertencentes a todos os departamentos do país e, de alguma maneira, ligados à educação, e 40 estudantes da Juventude Sandinista de diferentes universidades, foram selecionados e chamados a integrar o “grupo dos 80” ou grupo “Matriz da Cruzada Nacional de Alfabetização”. Essa informação é de Yadira Rocha Gutiérrez, membro do grupo dos 80 e autora do artigo “Nicarágua, 33 años después de la gran cruzada nacional de alfabetización”. Ela esclarece que foi chamada, assim como outros educadores nicaraguenses, para trabalhar, sobretudo de maneira incondicional, sem tempo nem condições, na preparação da campanha, com um treinamento intensivo de apenas um mês para poder conhecer a realidade nacional e seguir a risca uma das importantes declarações do Comandante e herói da Revolução, Carlos Fonseca Amador: “A maior injustiça da ditadura da família Somoza foi ter deixado o povo analfabeto e a primeira ação após o triunfo deveria ser o trabalho de tirar da ignorância os 54% da população que jamais teve a oportunidade de estudar, e isso foi feito”. Atualmente, Yadira é consultora independente em educação e desde 1991 faz parte do Conselho de Educação Popular de América Latina e Caribe (CEAAL), um movimento de educadores populares com o propósito de desenvolver alternativas na perspectiva de uma educação crítica, reflexiva, propositiva e libertadora.
Para Fernando Cardenal era clara a decisão de trabalhar com o método Paulo Freire desde o começo da caminhada: “de fato, durante a Cruzada eu não aprendi como se ensina a ler e escrever. E até hoje eu não saberia como fazê-lo. Naqueles meses não tive tempo para aprender, nem era esse o meu trabalho. Coube a mim, tomar a decisão (…): não só iríamos ensinar as letras e o que essas letras significam, nós também iríamos fazer com que o trabalhador e a trabalhadora do campo conheçam suas próprias realidades e os contextos econômico, social e político em que vivem. Nós iríamos ensiná-los a responder perguntas como: por que eu sou pobre? Queríamos que aprendessem a distinguir entre uma tragédia, como a seca ou um terremoto, e uma tragédia como a pobreza. Queríamos que compreendessem que a natureza provoca furacões e que a pobreza é provocada pelos seres humanos. Fazer esta distinção é conscientizar”.
Fernando sabia que Paulo Freire estava trabalhando na África e, justamente na época, vinculado ao Conselho Mundial de Igrejas. Na ocasião em que fez contato com ele, o sacerdote tinha ouvido falar que o mesmo voltaria para a sua terra natal, uma vez terminado o regime militar, e aproveitou para convidá-lo a passar pela Nicarágua quando regressasse ao Brasil. E Paulo aceitou o convite.
Naturalmente, a metodologia freiriana foi aplicada tendo como bases o vocabulário, os temas da realidade da Nicarágua e a realidade histórica do momento da vitória da revolução. Cardenal esclarece que para alfabetizar a partir de “palavras geradoras” e garantir o trabalho, de fato, com as palavras e temas da realidade, foi feita uma pesquisa para identificá-los, destacando-se: revolução, Sandino, Carlos Fonseca, reforma agrária, FSLN. Para ele, esse “era um momento de grande politização nacional. Fazia apenas alguns meses que Somoza havia sido derrubado”.
Já em 1990, logo após Fernando Cardenal ter sido inclusive Ministro da Educação (1984-1990), foi realizada outra campanha de alfabetização de adultos e, assim, uma nova pesquisa por palavras geradoras. Desta vez, os temas mais frequentes foram saúde e meio ambiente. Fernando insiste: “teria sido um absurdo que em 1980 fizéssemos uma campanha partindo de palavras como saúde e meio ambiente, como teria sido um absurdo em 1990 usar palavras como Sandino, Carlos Fonseca e reforma agrária”.
O chamamento da UNESCO, a expressiva doação recebida por intermédio de Paulo Freire e os principais gastos
“Poucos povos no curso de sua história recente têm uma história de sofrimento físico e moral, e sofreu tantos danos, como o povo da Nicarágua. À grande pobreza da maioria de seus habitantes, somam-se as perdas e desastres causados pelo terremoto em 1972 e a destruição sofrida durante a luta pela liberdade. Suas riquezas foram pilhadas, seus recursos destruídos, suas cidades e povoados severamente danificados; sua infra-estrutura desarticulada. Mas o custo humano é o mais grave: 35.000 mortos e 100.000 feridos, em sua maioria adolescentes, e 40.000 órfãos em um país de 2.200.000 habitantes”. Amadou-Mahtar M’Bow, UNESCO, 1980.
Um contundente apelo de solidariedade internacional espelhava em poucas linhas a dramática realidade daquele pequeno país na época, escrito pelo então diretor geral da UNESCO (gestão 1974-1987), Sr. Amadou-Mahtar M’Bow, um professor senegalês, agora com 94 anos. O chamamento pode ser lido na íntegra na revista mensal “El Correo de la UNESCO”, de junho de 1980, dirigido à comunidade mundial, após a visita que esse diretor fez ao país, comprovando pessoalmente o estado de precariedade e a importância das tarefas a serem empreendidas para a reconstrução nacional. M’Bow constatou que o grandioso plano de alfabetização era uma prioridade naquele ano, sendo o objetivo mais importante daquele novo governo do país para o “renascimento nacional”. Assim, tomou a decisão de cooperar no campo das competências de sua Instituição.
Segundo a própria UNESCO, a taxa de crianças que não tinham acesso ao ensino primário elevava-se a 35,2%. Um total de 50,2% da população com 10 anos de idade ou mais (cerca de 850.000 pessoas) eram analfabetas, vivendo em sua maioria nas zonas rurais. E a colaboração internacional deveria respaldar a Nicarágua tanto material como moralmente, o que envolveria de forma imediata o fornecimento de lápis, cadernos e recursos audiovisuais, lâmpadas e alimentos, por exemplo, pois a maioria dos locais de alfabetização seriam as próprias casas de campesinos. Em médio prazo seria feita a construção de novas escolas e uma importante formação profissional para professoras/es. O montante financeiro previsto nesse chamamento era de 20 milhões de dólares.
O então Ministro da Educação Carlos Tunnerman havia disponibilizado como escritório para funcionar a Cruzada Nacional de Alfabetização, algumas dependências dos edifícios do Ministério. Um cenário de muita dificuldade, conta Fernando Cardenal, pois até os paralelepípedos que tinham sido usados como trincheira contra a guarda genocida de Somoza ainda estavam dentro do recinto. Não havia mesas, somente poucas cadeiras. A primeira visita de Paulo Freire ocorreu justamente dentro deste cenário e momento histórico, ocasião em que Cardenal conversou pela primeira vez com o mestre. Fernando lhe explicou as linhas gerais do plano nacional de alfabetização baseado em seu método. E tomando a palavra, Paulo deu a confiança e a segurança necessárias, asseverando: “com o que vocês estão fazendo e com este método, poderão ensinar a ler em cinco meses, sim, vocês vão conseguir”. Em seguida, sem pensar mais, segundo a narrativa do sacerdote jesuíta, Paulo pegou o telefone para fazer uma ligação. “Não tínhamos nem uma mesinha, e o aparelho ficava no chão”. Fernando afirma que parece que até hoje pode ver Paulo Freire de joelhos no chão ligando para o Conselho Mundial de Igrejas para pedir apoio à Cruzada. E por intermédio dessa rápida ligação, Paulo consegue “a mais alta doação feita para a campanha: nenhum governo naquela época nos deu maior apoio, ao todo foram mais de 100 mil dólares!”
Mas Paulo Freire e Fernando Cardenal sabiam que transformar um país em uma escola seria uma árdua tarefa e necessitaria muito, mas muito dinheiro. Na realidade, foram muitas dificuldades econômicas, explica Fernando, “a maioria dos gastos era para apoiar os brigadistas (os alfabetizadores), continuamente tínhamos que comprar e enviar para o campo, lápis, cadernos, lousas, botas, porque tudo se gastava e se destruía (…) mas o mais difícil sempre foram as mortes”, referindo-se aos crimes por parte de contra- revolucionários que cumpriram as suas ameaças, ao todo, foram sete mortes.
Segundo Cardenal, os medicamentos foram uma das maiores despesas. “Porque no início, foi projetado um kit para cada esquadra (um grupo de 30 alfabetizadores), onde colocamos os principais medicamentos em quantidade suficiente para os cinco meses que duraria a Cruzada. Mas, após os primeiros quinze dias já solicitaram mais medicamentos. E o que havia de errado? As/os alfabetizadores estavam vivendo nas casas de camponeses que, por sua vez, também adoeciam. E você não podia dizer: não, este medicamento é nosso. Então, os medicamentos supriam as necessidades também das crianças, dos pais, de toda a família… Não era um kit para 30 brigadistas, era um kit para 30 famílias. A quantidade de medicamentos deveria ser estimada para 60 mil famílias e não para 60 mil brigadistas. Eram medicamentos para todo o país!”
Os ensinamentos freirianos e a linguagem militar da “Cruzada Nacional de Alfabetização” não seria uma contradição…
É certo que “alfabetizar é conscientizar”, tanto para Cardenal quanto para Freire, e a Cruzada foi evidentemente um ato Político! Nos fragmentos de suas memórias, Fernando narra que Paulo asseverava “que toda conscientização é política e que toda alfabetização é eminentemente política; que nunca existiu e nunca haverá uma educação neutra, sequer a educação familiar, pois ninguém educa ninguém de uma forma neutra”.
E seguindo esses ensinamentos, a linguagem militar adotada na Cruzada, em nossa opinião, pode ser considerada como uma estratégia que resultou eficaz. “A Cruzada se denominava Exército Popular de Alfabetização. Organizamos a juventude em esquadras, colunas e brigadistas (…). Todas as esquadras levavam o nome de heróis e mártires caídos na insurreição contra a dinastia somozista. Os relatórios que chegavam tinham sempre a linguagem da guerra: por exemplo, o inimigo está retrocedendo, temos tido batalhas triunfantes. Os inimigos eram o analfabetismo e a ignorância. As batalhas eram as salas de aulas; as vitórias, o fato de mais e mais gente aprender a ler e a escrever; e os territórios livres, as comarcas que ficavam livres do analfabetismo”.
Fernando explica que trabalhar assim foi, de fato, “determinante no contexto histórico que vivia a revolução para gerar consciência no povo”. E para entender isso é necessário lembrar que a campanha de alfabetização se iniciaria apenas alguns meses depois de um maciço esforço militar revolucionário para livrar Nicarágua da ditadura de Somoza, num movimento que envolveu, de uma ou de outra forma, a todos. “Os mais jovens tinham observado com grande admiração a forma como os jovens da guerrilha, somente um pouco mais velhos do que eles, tinham lutado heroicamente e conseguido enviar para fora do país o ditador e toda sua Guarda Nacional; e também haviam presenciado a morte de muitos companheiros.
O momento histórico era militar! “Os mais jovens eram muito jovens para participar na guerra e combater o somozismo, e agora tinham vontade de fazer algo mais pelo seu país. De repente, surge uma Cruzada, que lhes dá essa oportunidade. Mas não era mais pegar em armas como seus irmãos ou primos mais velhos, pais ou tios. Era outra coisa, era um trabalho social, era um trabalho para o desenvolvimento do país, mas a linguagem com a qual foi realizado este trabalho tinha de ser militar, permaneceu militar porque era a linguagem que havia acompanhado toda a nação por longo período de tempo, até apenas poucos momentos antes da Cruzada de Alfabetização. (…) O próprio hino da Cruzada era uma marcha militar que afirmava: avancemos brigadistas, guerrilheiros da alfabetização”.
Hino da Cruzada Nacional de Alfabetização (Letra e música de Carlos Mejía Godoy)
Avancemos, brigadistas, guerrilleros de la alfabetización, tu machete es la cartilla para liquidar de un tajo, la ignorancia y el error. Avancemos, brigadistas, muchos siglos de incultura caerán, levantemos barricadas de cuadernos y pizarras, vamos a la insurrección cultural. ¡Puño en alto! ¡Libro abierto! Todo el pueblo a la Cruzada Nacional. Ganaremos el destino de ser hijos de Sandino, convirtiendo la oscurana en claridad. Avancemos, brigadistas, guerrilleros de la alfabetización, tu machete es la cartilla para aniquilar de un tajo la ignorancia y el error. Avancemos, brigadistas, muchos siglos de incultura caerán, levantemos barricadas de cuadernos y pizarras vamos a la insurrección cultural.
https://www.youtube.com/watch?v=ZMY-GWXkc2A
A incorporação massiva da juventude: ganharam todos, alfabetizadoras/es e alfabetizadas/os
Fernando aclara que o movimento “Juventude Sandinista 19 de julho” já estava em vias de fortalecimento e que o seu nascimento teria sido um elemento chave para a incorporação massiva de jovens também nesse árduo desafio nacional. Fernando era amigo dos fundadores da Juventude Sandinista e a Cruzada de Alfabetização ofereceria uma enorme oportunidade de engajamento e de crescimento ao movimento, com um sentido de trabalho concreto. “Nós prepararíamos o método e a logística de alfabetização, cuidando do seu financiamento, e os responsáveis pela Juventude Sandinista, por sua vez, seriam responsáveis pela organização de todos os demais jovens”. Todavia, é importante dizer também que não era necessário pertencer à Juventude Sandinista, não havia distinção, mas foi o movimento que sensibilizou todo o restante da juventude nicaraguense. “Aqui devemos considerar novamente a mística daquele ano, uma mística única, um momento “irrepetível”. Temos de voltar no tempo para entender os desejos que tiveram os mais jovens de “fazer alguma coisa”. Para alfabetizar poderiam ir moças e moços, havia muitos de 13, 14 anos de idade. Houve inclusive de 12 anos. A maioria tinha 15, 16 e 17 anos. Era a juventude que pertencia ao ensino médio e superior. Foi essa geração que se somou à aventura”.
E, ao final, o país inteiro ganhou! O sacerdote garante que são muitos as/os alfabetizadoras/es que mantêm até hoje o compromisso social e compromisso com a Nicarágua, a partir de suas experiências com a Cruzada:
“Eu creio que, para os 60 mil moços e moças que alfabetizaram no campo, o grande ganho foi conhecer e compreender a vida dos campesinos. Foi um processo de conscientização muito profundo. Poderia se perder muito do projeto da revolução popular se nossa juventude não tivesse a oportunidade de ver com seus próprios olhos os motivos pelos quais queríamos mudar o país. Ao ver as condições inumanas de vida das mulheres e homens do campo, ali estava a razão da revolução nicaraguense”. (Fernando Cardenal).
E sem dúvida alguma, as pessoas alfabetizadas ganharam ao aprender a ler e escrever:
“Eu acho que a Cruzada também os ajudou a compreender o que se queria com a revolução. Ela lhes enviou um sinal muito claro, enviou-lhes o melhor que se tinha, enviou seus jovens. Foi uma mensagem: lá vão eles, é o melhor que temos, este moço, esta moça; este jovem vai viver em sua casa, vai dividir a comida com você, pode também correr perigo… Essa é a revolução. Essa foi a mensagem”. (Fernando Cardenal).
Há um Museu da Alfabetização localizado na capital, Manágua, com importantes informações, imagens, materiais, tipo de vivenda construída pelos brigadistas alfabetizadores, vídeos, artigos de imprensa, enfim, é um memorial dos heróis e mártires da Cruzada Nacional.
Veja também em http://www.miraicrida.org/museoalfabetizacion2.html
Merecido Prêmio Internacional de alfabetização
Em 1980, com a redução do ìndice de anarfabetismo de mais de 50% para 13%, Nicaragua recebeu o Prêmio Nadejda K. Krupskaia. Segundo dados da UNESCO, o país ocupava na época um lugar destacado entre todos os outros Estados da América Latina como modelo de campanha de alfabetização de grande envergadura, juntamente com o Brasil. O prêmio foi criado em 1970 pelo governo da então União Soviética, com o nome da companheira de Lênin, e simbolizava a massiva campanha de alfabetização realizada após a revolução soviética. O último prêmio Nadejda K. Krupskaia foi outorgado ao Paquistão, em 1991. A alfabetização tomou novos rumos em 1990, proclamado pela ONU como “Ano Internacional da Alfabetização” e a partir disso, muitos prêmios tiveram novos formatos.
Em Memória
Fernando Cardenal Martínez faleceu na semana em que desenvolvíamos a pesquisa documental para este Artigo. Era teólogo da libertação e foi ministro da Educação no Governo Sandinista entre 1984 e 1990, motivo pelo qual foi suspenso o exercício do sacerdócio em 1984 (pelo Papa João Paulo II) até 2014, quando foi levantada a suspensão pelo Papa Francisco. Teve de abandonar a Companhia de Jesus por sua vinculação com a FSLN e a teologia da libertação, por alegação de incompatibilidade entre as condições de religioso e de político, voltando a ser readmitido mais tarde. Segundo informações de sua biografia, ele é o único caso de regresso na história da Companhia de Jesus. Faleceu em 20 de fevereiro de 2016, com 82 anos. Seu irmão, também sacerdote católico e suspenso no mesmo período, Ernesto Cardenal, vive e está com 91 anos. Ernesto Cardenal é considerado um dos mais importantes poetas vivos da América Latina. Os dois foram históricos colaboradores da Frente Sandinista de Libertação Nacional.
Autores, colaboradores do Boletim UniFreire:
Luis Omar Dominguez Espinoza, ex-combatente da revolução nicaraguense vitoriosa em 19 de julho de 1979. É teólogo e professor de grego koiné no Seminário Teológico Bautista da Nicarágua, em Manágua.
Contato: luisdanicaragua@yahoo.es
Isabel Georgina Patronis Dominguez é orientadora pedagógica da Universidad Tecnológica La Salle (ULSA), em León, Nicarágua.
Contato: Isabel.dominguez@ulsa.edu.ni
Fontes: acessadas entre 10 e 28 de fevereiro de 2016.
http://www.envio.org.ni/articulo/3004
http://unesdoc.unesco.org/images/0007/000747/074758so.pdf
http://www.ceaal.org/v2/archivos/publicaciones/carta/nicaragua-cruzada-alfabetizacion.pdf
http://unesdoc.unesco.org/images/0009/000926/092609SB.pdf
http://www.miraicrida.org/museoalfabetizacion2.html
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