ARTIGOS

EDUCAÇÃO AMBIENTAL, LEITURAS DE MUNDO, SABERES TRADICIONAIS, ALFABETIZAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS E MÉTODO PAULO FREIRE: REFLEXÕES SOBRE UMA EXPERIÊNCIA DESENVOLVIDA NO ESTADO DO AMAPÁ

                                                              José Pereira Peixoto Filho[1]
                                                                                  Carolina Rezende de Souza[2]

    A dimensão ambiental no cotidiano escolar pode contribuir para abrir espaços os quais garantam a construção de saberes, capazes de possibilitar a formação de indivíduos protagonistas na construção de uma sociedade sustentável, socialmente justa, digna e socioambientalmente equilibrada. Podemos afirmar que a educação de jovens e adultos é marcada historicamente pela exclusão ou marginalidade no sistema educacional, tanto do ponto de vista institucional, quanto naquilo que se refere às práticas pedagógicas no cotidiano das escolas. Questões estas legitimadas pelas altas taxas de analfabetismo ainda existentes no Brasil. Assim, a educação de jovens e adultos deve de forma cada vez mais urgente, incorporar a dimensão ambiental. Porém, cabe afirmar que, muitas das propostas que visam a articulação entre os dois campos, ainda são imensamente caracterizadas pela ênfase na simples memorização e o mero repasse de conteúdos e sendo assim, com poucas contribuições para o entendimento da temática ambiental (TAMAIO, 2002).

    Considerando as questões relativas à temática ambiental, sobretudo na sua relação com a educação de jovens e adultos, esta deve ser compreendida dentro de uma perspectiva dialógico-problematizadora, pautada em uma visão mais abrangente da realidade socioambiental. Assim sendo, possa ter contribuições para processos de ensino e aprendizagem, os quais se oponham à fragmentação de conteúdos em estruturas disciplinares, na perspectiva do Método Paulo Freire, a partir da valorização dos diferentes saberes e conhecimentos tradicionais de grupos e comunidades rurais, inseridas em diferentes universos, tais como a Amazônia.

    O programa Saber mais, Viver melhor, Programa de Alfabetização do Estado do Amapá, foi viabilizado durante o governo de João Capiberibe, entre 2000 e 2003. O programa articulou o Governo do Amapá, Universidade Federal do Rio de Janeiro e Fundação Universitária José Bonifácio, tendo como público alvo para a alfabetização os trabalhadores envolvidos no Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá. Público este composto por parteiras, moveleiros, açaizeiros, castanheiros, quilombolas, entre outros. A experiência levou em conta a ideia de desenvolvimento sustentável, a partir do diálogo entre alfabetização, preservação dos recursos naturais, valorização dos saberes e culturas locais, aliada à promoção de melhorias nas condições de vida e no mundo do trabalho, produzindo importantes cadernos pedagógicos. Todo o conteúdo deste conjunto de materiais didáticos e as atividades realizadas articularam a Educação de jovens e adultos, a Educação ambiental e os saberes tradicionais, alicerçando-se didática e pedagogicamente pelo Método Paulo Freire.

    Para a efetivação do Programa foram realizados todos os momentos necessários e previstos na elaboração do Método Paulo Freire, tais como: levantamento da realidade local e sua contextualização, levantamento do universo vocabular e demais procedimentos exigidos na sua formulação. Após esta fundamentação foram elaborados cinco cadernos pedagógicos. O primeiro denominou-se Fundamentos para um trabalho educativo (2000), de cor terra, busca expor os elementos teóricos, metodológicos e pedagógicos das reflexões da equipe da Universidade Federal do estado do Rio de Janeiro (UFRJ), sobre o programa de alfabetização de adultos realizado e a ligação com a promoção das sociedades sustentáveis.

    O segundo Caderno do Educador (2000), de cor verde, busca discutir com os educadores e educadoras, o método utilizado na elaboração das atividades propostas no âmbito do programa. O terceiro Caderno de Atividades Pedagógicas (2000), de cor amarela, fornece aos educadores um conjunto de exercícios e dinâmicas, que podem auxiliar nas práticas pedagógicas das salas de aula. O quarto Caderno das Profissões (2000), de cor diamante, traz um panorama das profissões exercidas no estado do Amapá. E, por fim, o quinto caderno Histórias da Minha Terra, de cor azul, busca fornecer um panorama das lendas contadas pelos mais velhos, as canções e brincadeiras locais, mostrando a riqueza e diversidade da cultura popular da Amazônia.

    As atividades desenvolvidas e a produção dos cadernos pedagógicos no âmbito do programa Saber mais, Viver melhor, Programa de Alfabetização do Estado do Amapá preconizaram, em seus pressupostos teórico-metodológicos, a valorização dos saberes tradicionais dos educandos e das educandas envolvidos e as contribuições dos mesmos para o processo de aquisição da leitura e escrita destes atores sociais em uma perspectiva crítica e emancipatória (FREIRE, 1989). Enfim, procuraram desenvolver processos de alfabetização de jovens e adultos capazes de propiciar aos educandos e às educandas se reconhecerem como agentes do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Governo do Amapá, para a construção de uma sociedade sustentável, portadores de direitos e deveres como trabalhadores, trabalhadoras, cidadãos e cidadãs.

    Permitiram uma interface da educação ambiental com o Método Paulo Freire. Essa interface pode ser percebida a partir, também, das produções dos educandos e dos educadores, tendo como princípio o desenvolvimento intencional da curiosidade e do pensamento crítico. As práticas pedagógicas realizadas procuraram sempre, a partir da valorização dos conhecimentos dos educandos e educandas, como atores sociais, produtores de história e de cultura, articular práticas de alfabetização contextualizadas e formuladas dentro da proposta pedagógica dos cadernos. Essa proposta trazia em sua filosofia de educação a intenção da criação de multiplicadores, a partir dos chamados agentes de promoção de sociedades sustentáveis, no estado do Amapá.

    Neste sentido estas atividades foram fundamentais no que se refere à articulação da educação de jovens e adultos e educação ambiental, buscando a superação das dicotomias entre sociedade, cultura e natureza e, assim, o rompimento com a chamada educação bancária imensamente criticada por Paulo Freire. Valorizaram iniciativas capazes de proporcionar reflexões e o envolvimento de educadores e educandos em torno da temática ambiental, tendo em vista estratégias intencionais de valorização de suas leituras de mundo e saberes tradicionais, segundo os pressupostos do diálogo, da problematização.

    Experiências singulares de alfabetização de jovens e adultos que devem ser cada vez mais estimuladas, na sua articulação com os saberes tradicionais, a educação ambiental e o Método Paulo Freire, considerando a relevância das mesmas na superação dos estereótipos e estigmas dos sujeitos desta modalidade educativa, que mais do que nunca devem e necessitam ser reconhecidos enquanto importantes sujeitos ecológicos, históricos, políticos e socioculturais no universo de suas comunidades e grupos sociais.

Referências bibliográficas

FREIRE, P. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam.
São Paulo: Autores Associados: Cortez, 1989.80 p.

GOVERNO DO ESTADO DO AMAPÁ. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA JOSÉ BONIFÁCIO. Caderno do Educador. Programa Saber Mais, Viver Melhor Programa de Alfabetização no Amapá. Governo do Amapá, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fundação Universitária José Bonifácio, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, UFRJ: 2000. 81 p.

GOVERNO DO ESTADO DO AMAPÁ. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA JOSÉ BONIFÁCIO. Fundamentos para um trabalho educativo. Programa Saber Mais, Viver Melhor Programa de Alfabetização no Amapá. Governo do Amapá, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fundação Universitária José Bonifácio, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, UFRJ: 2000.49 p.

GOVERNO DO ESTADO DO AMAPÁ. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA JOSÉ BONIFÁCIO. Caderno de Atividades Pedagógicas. Programa Saber Mais, Viver Melhor Programa de Alfabetização no Amapá. Governo do Amapá, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fundação Universitária José Bonifácio, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, UFRJ: 2000. 58p.

GOVERNO DO ESTADO DO AMAPÁ. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA JOSÉ BONIFÁCIO. Caderno As profissões O Mundo do Trabalho. Programa Saber Mais, Viver Melhor Programa de Alfabetização no Amapá. Governo do Amapá, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fundação Universitária José Bonifácio, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, UFRJ: 2000. 66 p.

GOVERNO DO ESTADO DO AMAPÁ. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA JOSÉ BONIFÁCIO. Caderno Histórias da Minha Terra. Programa Saber Mais, Viver Melhor Programa de Alfabetização no Amapá. Governo do Amapá, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fundação Universitária José Bonifácio, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, UFRJ: 2000.  55p.

GOVERNO DO ESTADO DO AMAPÁ. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA JOSÉ BONIFÁCIO. Relatório realizado pela equipe do programa da oficina de capacitação com educadores e educadoras, Maio de 2001, Macapá, Amapá. Programa Saber Mais, Viver Melhor Programa de Alfabetização no Amapá. Governo do Amapá, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fundação Universitária José Bonifácio, UFRJ. 15 p.

GOVERNO DO ESTADO DO AMAPÁ. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA JOSÉ BONIFÁCIO. Relatório realizado pela equipe do programa da oficina de capacitação com educadores e educadoras, Julho de 2002, Laranjal do Jari, Amapá. Programa Saber Mais, Viver Melhor Programa de Alfabetização no Amapá. Governo do Amapá, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fundação Universitária José Bonifácio, UFRJ, 2000, 15 p.

GOVERNO DO ESTADO DO AMAPÁ. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA JOSÉ BONIFÁCIO. Produções de educandos e educandas do programa. Maio de 2003. Programa Saber Mais, Viver Melhor Programa de Alfabetização no Amapá. Governo do Amapá, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fundação Universitária José Bonifácio.

GOVERNO DO ESTADO DO AMAPÁ. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO. FUNDAÇÃO UNIVERSITÁRIA JOSÉ BONIFÁCIO. Diagnóstico realizado pela equipe do programa com educandos e educandas do projeto que resultou em produções realizadas por estes atores sociais. Programa Saber Mais, Viver Melhor Programa de Alfabetização no Amapá. Governo do Amapá, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fundação Universitária José Bonifácio, UFRJ, 2000.

TAMAIO, I. O professor na construção do conceito de natureza: uma experiência de educação ambiental. São Paulo: Annablume:WWF, 2002. 302 p.

[1]     . Possui graduação em Física pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (1966), Mestrado em Educação pelo Instituto de Estudos Avançados em Educação da Fundação Getúlio Vargas (1985) e Doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1992). Atualmente é professor da Pós-graduação stricto sensu da Universidade do Estado de Minas Gerais. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Filosofia da Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: educação, história da educação, formação de professores, ensino de matemática e educação de adultos.Endereço eletrônico: jpeixotofi@hotmail.com;

[2]     .  Bacharel em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação da FAE/CBH/UEMG na Linha de Pesquisa Educação, Trabalho e formação humana. Atua principalmente nos seguintes temas: Memória; Meio Ambiente; Cultura popular, territórios; Saberes Tradicionais e processos educativos. Endereço eletrônico: carolzitacs@hotmail.com

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